segunda-feira, 26 de julho de 2010

A DÁDIVA DO PRESENTE: AOS 33




Ontem (25/07) eu ouvi o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta, em entrevista à Marília Gabriela, dizer que há quatro anos, quando da morte de seu filho mais velho, encontrou nos livros o alento que lhe ajudou a mitigar a dor da perda. Mais do que o alento psicológico, DaMatta dizia ter experimentado com os livros um sentimento de esperança, e certa convicção de que a morte não teria a última palavra sobre a vida. Teria DaMatta lido a Bíblia? Não sei. Ele mesmo não o disse.

Hoje também eu perco um pedaço da vida. Rubem Alves tem razão quando diz que 76 são os anos que ele não tem mais. Quando nos perguntam nossa idade tendemos a dizer: “tenho 20 anos”, ou “tenho 33 anos”, ou “tenho 60 anos”. Nos equivocamos! Nasci em 26 de julho de 1977. Portanto, 33 são os anos que já não tenho, posto que se foram. Quantos ainda tenho? Não sei! Mas 33 são exatamente aqueles que me escaparam por entre os dedos hoje!

Eu quis fazer como Roberto DaMatta. Fui mitigar minha perda nos livros. E reencontrei um santo e um herege que me ajudaram.

Santo Agostinho é autor de uma belíssima meditação sobre o tempo no seu Confissões [Livro XI, O Homem e o Tempo]. Muito antes de qualquer Psicologia ou de qualquer Teoria da Relatividade, o bispo de Hipona nos persuadiria acerca da relatividade do tempo e da natureza subjetiva de sua produção. O que temos, conforme Agostinho, é um “eterno hoje”. Porque nem o passado nem o futuro existem, exceto como memória e expectação, respectivamente. O que nos sobra é a eternidade de cada momento. Não é curioso que exatamente essas coisas que não existem mais, sejam justamente aquelas que turvam em nossos olhos a dádiva do presente? Não é curioso que o passado seja o demônio de muita gente? Não é curioso que a expectação do futuro torne sem graça a dádiva do presente para muita gente? “Esquecerei as coisas passadas. Preocupar-me-ei sem distração alguma, não com as coisas futuras e transitórias, mas com aquelas que existem no presente”, concluía Agostinho.

A expressão “dádiva do presente” é de Rubem Alves em Towards a Theology of Liberation [no Brasil, Da Esperança]. É dita no contexto de uma advertência a todos os revolucionários, sejam teólogos, políticos, acadêmicos, etc. Porque nos parece que onde quer que um espírito revolucionário aporte, o presente precisa ser sacrificado em nome da construção do futuro. Parece-nos que no caminho para “outro mundo possível”, o presente precisa ser domesticado, negado, sacrificado em prol da luta e da militância. Perde-se assim o sentido erótico da vida, que só pode ser fruído como um Agora dadivoso. Para Alves, ao fruir a dádiva do presente “a pessoa está livre para as coisas simples da vida, coisas que não produzem manchetes nem mudam o mundo. Livre para conversar, para beber e comer, para fazer nada, em pura contemplação, para desfrutar o jogo do sexo, para brincar”. Assim, sem perder a dimensão da utopia que move nosso caminhar, a dádiva do presente, cheia de paixão e de erotismo, nos torna pessoas mais leves e menos ressentidas.

Foi aos 33, segundo os evangelhos, que Jesus de Nazaré morreu na cruz romana. Mas como pôde, consumiu fartamente do eterno hoje. Também não deixou esvair-se a dádiva do presente. Plantou as sementes de um mundo diferente a que nominava Reino de Deus, que é uma imagem arquetípica da sociedade marcada pela humanização plena de todo mundo. Mas enquanto o Reino não chegava, foi às festas do povo e não permitiu que a alegria acabasse junto com o vinho que findou. Foi chamado de comilão e de beberrão e não retrucou. Embrenhou-se entre pobres e prostitutas, que, ao que nos consta, dificilmente conversam sobre política.

Em Tempus Fugit Rubem Alves descreve o medo que lhe dava o relógio de parede na casa de seu avô. “Eu tinha medo. Hoje, acho que sei por quê: ele batia a Morte”, explica. De modo semelhante diz um verso do Pink Floyd: The sun is the same in a relative way, but you’re older / Shorter of breath and one day closer to death”.

Mais próximo da morte, sim. Mas sem medo algum. Trabalhando por outro futuro possível, sim. Mas fruindo o eterno hoje e a dádiva do presente. Aos trinta e três!

quinta-feira, 15 de julho de 2010

RESENHA DE “A PROFECIA NA IGREJA” (JOSÉ COMBLIN)


RESENHA DE “A PROFECIA NA IGREJA” (JOSÉ COMBLIN)


“Não deixe cair a profecia”. Foram essas as últimas palavras de Dom Helder Câmara ditas a Marcelo Barros, num encontro derradeiro entre os dois antes da partida daquele. E é justamente com um relato deste encontro que José Comblin nos introduz ao seu livro A profecia na Igreja. Talvez essa seja a melhor maneira de introduzir uma reflexão sobre a profecia na Igreja. Dom Helder certamente é a figura que melhor encarnou o papel do profeta cristão em nosso tempo. É muito justo que em sua lápide estejam grafadas as palavras: “O profeta do século XX”.

Também é verdade que o nome de José Comblin deve ser associado ao ministério profético de nosso cristianismo latino americano. Seu vigor na produção teológica, assim como sua insistência na mensagem de cuidado dos pobres, nos assusta e nos constrange. A profecia na Igreja, portanto, não deve ser recebido como nenhuma novidade. Antes, deve ser celebrado como expressão de uma visão inquebrantável, e como testemunho de uma fidelidade pouco comum entre as gerações mais recentes de teólogos e teólogas.

Seu livro chega num momento em que necessitamos exercitar a esperança. Ele nos serve perfeitamente nesse propósito. O cristianismo latino americano, no que diz respeito à sua vocação profética, parece viver um tempo de desgaste e de exaustão. Em meio a um momento de aparente hegemonia das forças reacionárias no âmbito católico, os movimentos teológicos e eclesiais ligados à Teologia da Libertação parecem atravessar uma crise e um momento de retomada de seu vigor. No âmbito evangélico, as teologias triunfalistas e o apelo subjetivista da experiência religiosa ganham espaço e se afirmam de forma crescente. Também nesse ambiente os grupos e movimentos identificados com uma proposta progressista e libertadora enfrentam grande dificuldade de articulação e afirmação. Onde estará a profecia no atual cristianismo latino americano? Onde identificá-la? Quais são seus atuais desafios? Quem são os atuais alvos de sua denúncia?

A profecia na Igreja deseja nos situar em face desse contexto, e deseja responder a estes questionamentos. Comblin parte de uma intuição fundamental: o espírito profético sempre esteve presente na vida da Igreja. Certamente, uma das grandes contribuições da presente obra consiste em contrapor-se ao olhar viciado de nossas análises, que a partir de sua ânsia pela crítica, tendem a não dar visibilidade aos focos de resistência e às articulações proféticas sempre presentes em nosso cristianismo.

Seguindo sua veia de biblicista consagrado, o Autor dedica os três primeiros capítulos de seu livro à descrição e análise do profetismo bíblico, desde os profetas do Antigo Testamento (cap. 1), até a uma avaliação da dimensão profética do ministério de Jesus de Nazaré (cap. 2), culminando com a descrição do profetismo cristão no primeiro século, onde a ênfase recai sobre o livro de Atos dos Apóstolos (cap. 3). Em seguida, Comblin nos oferece um capítulo dedicado ao estudo da presença da profecia entre os teólogos patrísticos (cap. 4), e outro dedicado à presença da profecia na Idade Média (cap. 5). Ao período compreendido como o início da Modernidade, o autor dedicará outro capítulo, caracterizado pelo acento conferido à importância do espírito profético durante a conquista das Américas (cap. 6). Dois capítulos desta revisão histórica ocupam-se do mundo contemporâneo. No primeiro deles, Comblin destaca o lugar da profecia na construção da sociedade industrial (cap. 7), e no segundo, procede com a descrição da atuação concreta de alguns padres iminentes da América Latina no século XX (cap. 8).

Os três últimos capítulos são mais construtivos que narrativos. No primeiro deles, o interesse do Autor se volta para refletir sobre os elementos constantes no espírito profético, identificáveis onde quer que a profecia tenha se manifestado no tempo e no espaço (cap. 9). A ênfase aí, obviamente, recai sobre a conversão ao pobre. O penúltimo capítulo dedica-se a uma descrição do papel atual da profecia. Nesse tocante, Comblin nos oferece uma breve avaliação do fenômeno da globalização, assim como as possibilidades de enfrentamento dos seus efeitos nocivos sobre os pobres (cap. 10). Por fim, o último capítulo é dedicado a uma avaliação de quais seriam os futuros desafios que o presente contexto coloca àqueles que se identificam com os anseios de libertação dos pobres e dos demais oprimidos de nossas sociedades (cap. 11).

O critério do Autor para discernir o espírito profético presente em um grupo ou em um indivíduo é muito simples. O profeta é aquele(a) que, a partir da escuta da Palavra de Deus e da vivência do Evangelho de Jesus Cristo, assume a causa do “povo dos pobres”, como se refere o Autor constantemente. Ele(a) é uma pessoa marcada pela liberdade. Seu aparecimento é imprevisível, sendo fruto de uma ação do Espírito Santo em favor dos sem-vez e sem-voz. A palavra do profeta é pontual. Dirige-se sempre a uma situação concreta, historicamente situada, de tal maneira que ultrapassado o desarranjo a que se dirige, esta palavra já não faz sentido. Ao mesmo tempo em que enfrenta as forças opressoras da sociedade, o profeta pede a conversão de toda a Igreja à tarefa de cuidado dos excluídos. Por isso, a profecia não se dá a despeito da Igreja, mas se dá como um carisma em seu interior.

O Autor, já próximo dos seus noventa anos de idade, encerra suas reflexões oferecendo-nos um testemunho de profunda esperança, pois deseja apostar nos jovens como os portadores da profecia atual. “Os profetas estão no meio de nós. Provavelmente são jovens, pois ainda não apareceram publicamente” (p. 286), ele nos diz. E nas últimas linhas de seu livro, conclui: “Eu estou no final da vida. Tive o privilégio de conhecer de perto e de participar da vida de grandes profetas e também de muitos pequenos profetas, homens e mulheres, que não entraram oficialmente na história. Desejo que muitos jovens possam fazer a mesma experiência” (idem).

Os olhos de José Comblin, capazes de notar a presença sempiterna do espírito profético na vida da Igreja, e seu coração, ainda capaz de apostar nos jovens de nossa geração, dão testemunho de que o Espírito Santo de fato continua a soprar entre nós. Mas os profetas, é verdade, são pouco ouvidos. Oxalá A profecia na Igreja ajude a dar audibilidade à voz do Espírito, afinal, “quem tem ouvidos, ouça o que Espírito diz às Igrejas”. E os profetas serão sempre seus portavozes prediletos. José Comblin, sem dúvida, um deles na América Latina neste tempo.

________________

COMBLIN, José (2008). A profecia na Igreja. São Paulo: Paulus, 287p.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

FÉ PARA “SER MAIS”


Sobre a mulher sem nome de

Lucas 8,43-48

Ninguém gosta de ficar doente, não é? Dia desses estive com dengue. A gente fica indisposto, o apetite fica embotado, além de termos que nos afastar momentaneamente das coisas que gostamos e precisamos fazer: trabalho, laser, escola, etc. Mas também é verdade que enfrentar momentos de enfermidade no aconchego do ambiente familiar e à roda de amigos torna tudo menos pesado. Enfrentar esses momentos rodeados de carinho torna o enfrentamento da doença mais leve.

Mas a mulher de nosso texto em foco, por conta do contexto social e cultural de seus dias, não pôde contar com nenhum desses atenuadores. No entanto, mesmo vivendo num contexto diferente do nosso, o texto nos dá pistas para pensar em como aquela mulher se parece com tantas mulheres que ainda hoje lutam por saúde e dignidade.

Padecendo de uma hemorragia durante doze anos, ela havia gasto todos os seus recursos na procura por saúde. É pouco provável que “todos os recursos” seja sinônimo de muitos bens. Tudo indica mesmo que ela era, junto com a maior parte de seus contemporâneos, alguém pobre e de recursos escassos. O texto sequer menciona seu nome, ao contrário das mulheres que patrocinavam o ministério de Jesus com seus bens, mencionadas nominalmente em Lucas 8,1-3. Esse apoio contínuo indica que estas certamente pertenciam a classes mais favorecidas economicamente. Quanto à mulher hemorrágica, parece tratar-se de uma mulher simples do povo, que viu na fé um recurso derradeiro para sua situação.

Se o simples fato de ser mulher em seus dias já não bastasse como um peso e uma limitação na vida social, sua condição de mulher enferma piorava tudo. As leis religiosas vigentes ajudavam a aumentar o seu sofrimento. Afinal, não bastasse o flagelo no corpo, as leis de purificação e de isolamento social dirigidas às mulheres durante o fluxo menstrual confinavam a estas num espécie de apartheid religioso. Portanto, certamente nossa personagem vinha padecendo também por doze anos o estigma do isolamento social. Doze anos sem ir à feira. Sem desfrutar a comunhão nos ambientes religiosos. Sem as conversas de fim de tarde com as vizinhas. Sem o abraço dos familiares. Doze anos sem todos aquelas bênçãos que advém do convívio social, e nos ajudam na construção de nossa felicidade.

A observação do cotidiano nos dá a impressão de que realmente as mulheres cuidam mais da saúde que os homens. Atualmente temos no Brasil até políticas públicas voltadas para o fortalecimento da saúde masculina. Numa sociedade organizada para segregar as mulheres da plenitude das bênçãos da sociabilidade, parece que estas encontram no corpo um lugar de sua afirmação como seres humanos. Cuidar da saúde não somente porque ficar doente é ruim. Cuidar da saúde porque o corpo é um lugar de afirmação e celebração da vida! Como nossas mulheres de hoje, a mulher de nosso texto parece saber disso muito bem. Ter saúde numa sociedade organizada para os homens era o mínimo que ela poderia fazer como meio de afirmação da vida.

“Se eu apenas tocar suas vestes...”. Essa pequena intuição nos indica que não foram apenas seus recursos materiais que haviam se esgotado. Parece-nos que também seus recursos religiosos haviam acabado. Tocar as vestes de um líder religioso, como atitude terapêutica, não fazia parte de nenhum código sagrado. Nem mesmo constava na Lei de Moisés! Aquilo havia sido inventado pela esperança! Se os recursos materiais e religiosos haviam se esgotado, a esperança ainda não.

Nosso povo é assim. Sua fé e sua esperança são sempre maiores que os recursos oficiais para o enfrentamento das crises. A fé e a esperança do povo são sempre arredias, transgressoras, criativas, sobretudo nas situações de encruzilhada. De um ponto de vista da religião organizada, aquela pobre coitada ostentava a vil heresia de que tocar nas vestes de um camponês pudesse fazer aquilo que sacerdotes e médicos não puderam fazer por doze anos.

E o texto nos deixa com a impressão de que médicos e sacerdotes precisam ainda hoje desenvolver a capacidade de se voltar para o ser humano em sua singularidade, em sua pessoalidade, com sua história de vida peculiar. Talvez o problema de nossa mulher em foco tenha sido somente esse: não ter encontrado naqueles doze anos alguém com a sensibilidade de, em meio à multidão, dizer-lhe: “alguém me tocou!”. Isso porque existem momentos em que somos “Povo de Deus”, “Nação Brasileira”, “Classe Social”, etc. Mas há situações na vida em que somos “José dos Santos”, “Maria da Silva”, “Paulo Nascimento”. Como dizia Ortega y Gasset, há momentos em que somos apenas “nós e nossas circunstâncias”.

Médicos e sacerdotes não estão sempre tentados a negligenciar histórias de seres humanos singulares em função das multidões? Mais do que a benção da cura física, Jesus demonstra a benção de ser sensível ao ser humano em sua dor que é intransferível.

“Tem bom ânimo, pois tua fé te salvou!” Tua fé na vida te salvou! Tua fé e tua teimosia em ser feliz te salvaram! Tua força criativa e tua obstinação te salvaram! Volta a gozar a saúde em teu corpo! Volta a fazer as coisas que gostas! Goza a benção do convívio com os outros! Volta a freqüentar os espaços que a religião te arrancou! Goza a benção da vida, do corpo, da dança, do abraço, dos encontros, dos olhares sem condenação, da vida em abundância! Tua fé te salvou de toda condenação: daquelas impostas pelos limites estabelecidos pela doença, e daquelas impostas pelos limites de uma sociedade machista e desumana!

Nós, teólogos e teólogas, temos nossas explicações e definições para a fé. Quase sempre nosso jeito sofisticado de pensar define a fé como concordância com as definições dogmáticas, sistemáticas, doutrinárias e confessionais. No máximo, fé é a concordância cega com o conteúdo literal das escrituras e sua interpretação oficial. O povo quase não reclama disso. O povo diz muito amém, e consome, às vezes com entusiasmo, o capital simbólico que as oficialidades produzem. Mas por vezes a vida reclama por um pouco mais. Aí o povo se torna protagonista. Homens e mulheres, em situações de encruzilhada, vêem-se com a oportunidade de serem criativos. A vida lhes exige que assim o seja. Ser criativo, nessas circunstâncias, é explorar o potencial de vida que resiste como chama de vela dentro de nós.

A gente chama isso de fé. Fé é uma chama de vela que quer ser fogueira. É a potência humana que incendeia o corpo e a alma. Que resiste contra as imposições e limitações da vida, seja em sua dimensão natural, seja em sua dimensão cultural. É por isso que a fé é salvífica! Porque somente por meio dela os seres humanos podem escapar da perdição de “serem menos”, quando foram criados por Deus para “serem mais”!

sexta-feira, 25 de junho de 2010

SOBRE AS ENCHENTES EM ALAGOAS


SOBRE AS ENCHENTES EM ALAGOAS:

Um relato in loco

No dia 23/06, nos turnos da manhã e da tarde, eu e o Pr. Wellington Santos visitamos as cidades de Branquinha e Murici, além da vila de Utinga, na zona rural de Rio Largo. Essas três localidades estão entre aquelas que foram devastadas pelas enchentes no estado de Alagoas. A princípio, a idéia era a de visitar nosso amigo Pr. Sandoilson Régis em Murici. Mas ao encontrarmos esse amigo e sua família em tranqüilidade, nosso itinerário se estendeu. Quando falo de tranqüilidade em relação ao Pr. Sandoilson e sua família, falo apenas do fato de sua residência não ter sido atingida pela enchente. Na verdade, a tranqüilidade de sua família se traduzia em intranqüilidade em relação ao povo de Murici, uma vez que encontramos aquele colega e sua esposa trabalhando duro para cuidar do povo atingido pela calamidade.

Eu gostaria de encontrar as palavras adequadas para descrever o que vimos, sobretudo em Branquinha e Murici. Fiquei com a impressão de que inefáveis não são somente aquelas experiências que chamamos de “experiências do Sagrado”. Há realidades humanas, mormente as de profunda calamidade coletiva, que também são inefáveis. Elas escapam a toda descrição, e é impossível que sejam ditas objetivamente. É impossível de serem ditas sem que nossos sentimentos não estejam embrenhados na tentativa de falar acerca delas. Falar delas é falar de nós.

O que se pode dizer é que a cobertura midiática não chega a dimensionar sequer superficialmente a situação. Não se podem comparar as imagens da TV com as imagens que se têm com os pés enterrados em 30 centímetros de lama. Não se podem comparar as imagens da TV com as imagens recheadas de diálogos com os moradores à cata de seus objetos domésticos nos escombros. Não se podem comparar as imagens da TV com as imagens que alimentam a idéia de que corpos estejam sob os escombros. Não se podem comparar as imagens da TV, seletivamente organizadas, com a impressão subjetiva da onipotência do caos.

As imagens da TV não conseguem transmitir a tonalidade surreal da situação in loco. Talvez porque a própria mídia seja especialista na banalização do caos, da guerra, da violência, das calamidades naturais, etc. De tanto que nos acostumamos a conviver com essas cenas em filmes, novelas e nos outros subprodutos da TV, os flashes acerca das enchentes em Alagoas perdem em força imagética.

Minha amiga e estudante de Psicologia Juliana tem dito repetidamente, e com muita razão, que a tragédia se avolumará, de fato, a partir de agora. As enchentes são somente o estopim de uma catástrofe muito maior. Eu, Wellington e Sandoilson pudemos perceber um pouquinho disso hoje em Murici. Tanto ali como em outros lugares, algumas escolas públicas foram transformadas em alojamento para as famílias desabrigadas. Não obstante, as condições sanitárias nesses ambientes são terrivelmente degradantes, já que a estrutura física dos prédios não foi projetada para esse fim. Em todas as comunidades atingidas falta água potável, energia elétrica, remédios e itens ligados à higiene pessoal. As famílias se amontoam nas salas de aula. O ano letivo dos estudantes está comprometido.

Nós nos interrogávamos acerca do fato de que se em Alagoas os processos políticos já não dão conta sequer da administração das demandas corriqueiras da polis, agora com todas essas super-demandas extras então...

E o nojo nos invadia só de pensar que provavelmente, nesse ano eleitoral, as enchentes vieram preparar um terreno hiper-fértil para candidatos que utilizarão sem dó as necessidades da população para comprar votos.

Falando nisso, eu não preciso repetir aqui o que os pastores Wellington Santos e Reginaldo Silva já disseram em outros textos: que a tragédia em Pernambuco e Alagoas não é natural, mas política.

Num texto clássico Freud dizia que nós, seres humanos, inventamos a religião para, entre outras coisas, aplacar o medo das forças intempestivas da natureza. O medo da morte, o desamparo diante da vida e a fragilidade diante das forças da natureza seriam os vetores na base da gênese da religião. Isso ele disse em 1927 no livro O futuro de uma ilusão. Não concordo! Se num passado remoto a religião foi a forma de enfrentamento do medo das forças da natureza, hoje não é mais.

Desde Francis Bacon – isto é, muito antes de 1927 – a natureza foi por nós dessacralizada. Desde Bacon ela deixou de ser Mãe de Mil Seios Fartos, para ser um espaço a ser dominado pela racionalidade e pela técnica. Isso em função do conforto das elites, não esqueçamos! O medo da natureza foi substituído por uma arrogância que se ancorava na possibilidade de desvelamento dos seus segredos mais íntimos. Conhecer para dominar. É a Bacon devemos o adágio “saber é poder”. É verdade que se trata de um sonho fracassado. Nunca dominamos a natureza. Mas aprendemos a conviver com ela. A tirar proveito dela. A se adaptar aos seus ciclos indomáveis. Pelo menos para os ricos isso é verdade!

O pior é que aprendemos a usar a natureza ideologicamente. Fazemos isso de duas formas:

(1) Para segregar os pequenos, os pobres, os imundos, a escória. São eles que habitam os morros e encostas. São eles que habitam as margens dos rios e os lugares mais insalubres de nossas cidades. Michel Foucault, em Em defesa da sociedade, nos falava da nefasta atitude política do “deixar morrer”, como forma alternativa com que o Estado Moderno trata as classes mais baixas. Como o genocídio tornou-se politicamente incorreto, a forma de “purificação” ou de acossamento dos impuros é o “deixar morrer”. São justamente os pobres aqueles que menos têm acesso à inteligência que melhor adéqua homem e natureza. A inteligência e racionalidade que produz projetos urbanísticos que poupam as populações das intempéries da natureza é privilégio dos ricos. Os pobres que se virem para enfrentar a natureza e seu poder maior.

(2) Para ocultar a responsabilidade política do Estado frente às populações carentes. Num viés histórico-dialético, chamaríamos isso de discurso ideológico. O que me causa espanto é que pouca gente questiona o discurso de culpabilização da natureza. Se a culpa é da natureza, por que somente os pobres é que são vitimados? Teria a natureza alguma coisa contra os pobres? Se é “vontade de Deus”, por que Deus não despeja sua ira contra aqueles que confinam o povo na miséria? Haveria pecado maior que maltratar aqueles a quem Deus chamou de “minha imagem e semelhança”?

Mas a caminhada nas ruas de Branquinha e Murici não produziu somente torpor e impotência. A catástrofe também ajuda a ratificar a ambigüidade humana, o que acaba por produzir indignação. Nas ruas há gente que ajuda a limpar a cidade, e há gente que joga dominó e assiste a tudo. Há gente atolada no barro atrás de um pertence, e há gente querendo vender cartela do jogo do bicho a não sei quem. Há muita gente pobre que doa do seu pouco feijão, e há gente abastada que vende um pacote de velas por cinco reais. Há gente solidária com a dor de amigos e parentes, e há gente preocupada somente com Brasil X Portugal. Há gente de igreja que pragueja diante da situação, e há sem igreja que conta piada ao visitante de outra cidade.

Amanhã visitaremos outros amigos pastores em cidades no rastro das enchentes: União dos Palmares, São José da Laje e Santana do Mundaú. Nunca é demais lembrar a todos sobre as doações de donativos. O que o contato direto com as comunidades atingidas mostra é que alimentos e produtos de higiene são a prioridade agora. Procure um posto de doação em sua comunidade: igreja, escola, etc. Para os amigos e amigas de outros estados, as doações em dinheiro, feitas a pessoas e instituições de confiança, são muito bem vindas.

Forte abraço, e não deixem de orar por todos os atingidos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

CONGRESSO DE TEOLOGIA EM JEQUIÉ-BA


O convida 2010 traz em seu tema uma denúncia e um anúncio. Denuncia todas as formas de destruição de vida no planeta, especialmente o extermínio engendrado pelo sistema capitalista selvagem. Anuncia que a terra é a nossa casa-comum e que devemos cuidar dela; é o jardim de Deus onde somos convidados a caminhar com Ele e com o outro. O orador oficial será o Pr. Paulo Nascimento (Maceió, Igreja Batista Forene). Teremos também o lançamento do livro VILA MARAVILA do Pr. Marcos Monteiro, mesa-redonda e a participação musical de VAL MARTINS e sua esposa, MOANA.

[Texto fornecido pelos organizadores]

domingo, 23 de maio de 2010

PALESTRA SOBRE PSICOLOGIA E RELIGIÃO


Olá minha gente boa!

Como vocês podem ver no cartaz ao lado, no próximo dia 11/06/2010 teremos um interessante bate-papo sobre Psicologia e Religião. O tema da palestra é
Experiência religiosa e saúde mental. Nossa convidada é a profª Drª Heliane Leitão, da UFAL. O evento será realizado com a parceria entre o núcleo alagoano da FTL e o Seminário Teológico Batista de Alagoas. Será às 19:00h no Colégio Batista Alagoano. Apareça!

Paulo Nascimento

(Coordenador do FTL-AL e professor do SETBAL)

sábado, 22 de maio de 2010

UMA POLÍTICA PÚBLICA DA COAÇÃO?


Sobre a proposta de realocação dos moradores da Vila do Jaraguá em Maceió


Na última sexta-feira (22/05) eu estive pela primeira vez na comunidade dos pescadores do Jaraguá, aqui em Maceió. Quem não mora aqui dificilmente deve saber que a vila dos pescadores do Jaraguá se encontra no centro de uma polêmica contra a atual gestão municipal dessa cidade. Isso porque – agora posso dizer com a convicção proporcionada por uma aproximação concreta – a comunidade de pescadores do Jaraguá representa uma pedra no sapato das elites desse estado que vive de vender um simulacro aos turistas. Sim! A indústria turística de Alagoas vive de um enorme simulacro!

Faz mais de quatro séculos que Alagoas é um estado programado para atender às vontades de uma diminuta elite: abastada, confortável, soberba e insensível frente às condições de vida das maiorias populares. Em Alagoas, por maior esforço que empreendamos a fim de não sermos marxistas, alguns dos postulados do barbudo alemão ganham uma incrível efetividade. Por exemplo, para Marx, nas sociedades capitalistas o estado sempre se constitui como uma espécie de “comitê político da burguesia”. Nada mais aplicável à realidade alagoana. Como comitê político de uma pequena elite, em Alagoas o estado sempre se constituiu como alavanca dos interesses econômicos desses poucos, que, aferrados à idolatria da indústria canavieira, vem condenando por mais de quatro séculos à sub-vida o grosso da população, hoje com cerca de três milhões de pessoas espalhadas pelas três principais regiões locais – a Zona da Mata, o Agreste e o Sertão.

No fim de 2009 fiz com minha esposa uma viagem de ônibus que nos proporcionou cruzar essas três regiões de Alagoas. Embora as viagens aéreas nos proporcionem as grandes vantagens do conforto e da rapidez, somente as viagens por terra nos proporcionam as melhores condições de observação e de análise social. Enquanto as alturas do avião transformam as contradições sociais em belas paisagens, as janelas do ônibus acentuam essas contradições. Observar da janela do ônibus o cotidiano das cidades alagoanas, as feiras livres, as pessoas caminhando pelas ruas, as fachadas das casas, as condições de saneamento básico, tudo sob o olhar crítico de quem deseja discernir as contradições sociais de nosso povo, foi, de fato, o melhor remédio contra uma cansativa viagem entre Maceió e Delmiro Gouveia.

Esse “cruzeiro” pelas três regiões de Alagoas serviu como forma de confirmação do caráter nefasto da economia canavieira, e de como o estado, pelo menos aqui entre nós, confirma a opinião de Marx: é sim o comitê político da burguesia! As cidades do interior com as piores condições estruturais de Alagoas, cujos déficits habitacionais e as demais discrepâncias sociais são mais gritantes, estão localizadas justamente na faixa geográfica que hospeda o “carro-chefe” da economia de Alagoas: na Zona da Mata. E quanto mais nos afastamos geograficamente do raio de abrangência da cana, mais topamos com as cidades interioranas com as melhores condições estruturais de Alagoas.

Não é curioso que o carro-chefe de nossa economia estadual, em lugar de produzir na faixa geográfica que lhe hospeda (a Zona da Mata) as melhores condições de vida, faça exatamente o contrário, produzindo pobreza, medo, escassez, subdesenvolvimento e morte? Não é curioso que as faixas geográficas menos favorecidas pelo carro-chefe de nossa economia, e cujas condições climáticas são mais adversas (o Agreste e o Sertão), proporcionem no interior de Alagoas o aparecimento das cidades com as melhores condições estruturais?

Desde o final de década de 1980 deu-se em Alagoas o início da construção de uma nova “vocação econômica”, identificada com o turismo. Pensando com os referenciais da economia, talvez seja possível relacionar essa “nova vocação” econômica à desaceleração do setor canavieiro ocorrida nesse período. Esteja essa leitura correta ou não, o certo é que a nova vocação econômica de Alagoas identificada com a indústria turística, até aqui ainda não serviu como meio de superação dos terríveis dilemas estruturais desse estado. Pelo contrário, uma avaliação provisória revela a ambivalência trazida pela economia do turismo.

Enquanto do ponto de vista dos benefícios econômicos podemos afirmar que o turismo serve como meio de “aquecimento da economia local”, injetando-lhe capital e criando uma rede de empregos diretos e indiretos, do ponto de vista da identidade cultural o turismo vem proporcionando uma invasão estrangeira em certas comunidades praieiras que contribui no atentado crescente às formas tradicionais de vida dessas comunidades nativas, como bem mostra o trabalho de pesquisa da professora Adélia Augusta Souto, do departamento de Psicologia da UFAL.

A presente polêmica entre a prefeitura de Maceió e a comunidade dos pescadores do Jaraguá revela outra estranha faceta presente na vocação turística deste estado: ela se alimenta da negação daquilo que, para o estado (e obviamente para as elites locais), é considerado repulsivo, impuro e feio aos olhos dos visitantes. É Zygmunt Bauman quem melhor vem tratando do tema da eliminação e do confinamento do “lixo humano” por parte de nossas sociedades pós-modernas. Em nome dos ideais pós-modernos de “pureza” e de “ordem”, a palavra da vez é reciclar as sociedades do “lixo humano”, sejam os imigrantes ilegais nos países europeus e nos Estados Unidos, sejam aqueles que estão fora do circuito de consumo nos grandes centros urbanos, sejam os pescadores ditos favelados que “mancham” a bela e organizada orla de Maceió.

O fetiche de momento da prefeitura de Maceió consiste em realocar os moradores da vila do Jaraguá. Foi lá, em frente à AMAJAR (Associação de Moradores e Amigos do Jaraguá), comendo camarão e lagosta oferecidos por Enaura, que entendi a coisa de forma integral. A vila está situada ao lado do cais do Porto de Maceió, que é por onde escoa boa parte do açúcar que adoça o café dos europeus, e é também onde os navios turísticos podem ter sua primeira impressão visual da capital alagoana. Os cruzeiros chegados à Maceió não têm outra opção: antes da Pajuçara, da Ponta Verde, da Jatiúca, e das outras belíssimas praias dessa capital, a vila de pescadores do Jaraguá é a primeira visão que se pode contemplar dos navios ali aportados. De fato, uma pedra no sapato da elite político-econômica alagoana preocupada em salvaguardar os olhos dos turistas da “presença imunda” dos pescadores.

A orla de Maceió, como é atestado pelas próprias pessoas aqui chegadas de outros cantos, está entre as mais belas do Brasil. Tanto em seus aspectos naturais quanto naqueles relacionados à estruturação paisagístico-urbanística, ela merece destaque. A vila de pescadores do Jaraguá existe nesse contexto há sessenta anos. No entanto, é gritante o descaso da prefeitura quanto à mesma, sobretudo no que tange à infra-estrutura. Falta absolutamente tudo. Desde a atenção à saúde até a educação. Desde os investimentos em educação até o fomento à cultura. Eu chamaria o descaso do poder público municipal com a vila de pescadores do Jaraguá como a sua “política pública de coação”.

Em diálogo com a presidente da AMAJAR, pudemos conhecer algumas das razões da resistência à realocação proposta pela prefeitura de Maceió aos pescadores do Jaraguá. A razão fundamental está associada à localização estratégica da vila e sua relação com a economia de pesca que sustenta as mais de quatrocentos e cinqüenta famílias ali presentes. Além de situar-se numa enseada, o que é fundamental para a alocação dos barcos sobretudo quando estão aportados, a localização da vila justifica-se como ponto estratégico em função dos ciclos tradicionais da pesca dos diferentes produtos do mar. Entretanto, para além dessas razões ligadas à economia da pesca, a líder comunitária nos falava de outras razões ligadas à sociabilidade existente entre os homens e mulheres da comunidade. O partilhar da vida, o cuidado mútuo dos filhos, os momentos celebrativos etc., são todos exemplos dessa rede de sociabilidades existentes numa comunidade com sessenta anos de idade.

O que podemos afirmar é que para a atual administração pública as razões dos turistas valem mais que as razões desse povo tido como feio, sujo e favelado. Desde quando as razões de nossas maiorias populares determinaram a condução das políticas públicas em Alagoas? Ao que me parece, o grito dos excluídos está longe de ser, ao menos em Alagoas, ouvido pelo estado, de olhos e ouvidos sempre arregalados para uma fração mínima de nossa população.

Então, para concluir, eu perguntaria: quem de fato são os impuros e os desordeiros nesse jogo? Nenhum de nós estaria doido a ponto de dizer que ordem e pureza não são elementos importantes na organização da vida humana. O problema é quem elegemos como sendo impuros e desordeiros (ou desordenados). O problema, de outra forma, consiste no fato de que pureza e ordem implicam sempre na negação e na tipificação da alteridade, isto é, na transformação do diferente em lixo humano. O problema, enfim, é que a tipificação do outro como lixo humano nunca leva em consideração as razões desse outro, que diferente do lixo-lixo, fala, sente, e é capaz de significar a si mesmo e à sua própria existência.

Em minha opinião, impuros e desordeiros são aqueles que esqueçam que o “lixo” e a “desordem” a quem desejam expurgar são produtos de sua própria atividade: suja, desordeira e desordenada.