quarta-feira, 12 de novembro de 2008

RELIGIOSIDADE E ESPIRITUALIDADE


Hoje (12/11), enquanto uma de nossas colegas do curso de Psicologia apresentava seu pré-projeto de pesquisa perante a turma, surgiu uma discussão acerca das palavras religiosidade e espiritualidade. Seriam essas palavras sinônimas? Não seriam? Se não forem sinônimas, qual a distinção entre elas?

Engraçado que depois de expor seu ponto de vista, o jovem professor exclamou diante de todos, se referindo a mim: “e o que diz o nosso teólogo?” E eu tive que me manifestar. Sim, disse na sala o que já havia dito em público, no mês de maio desse ano, num encontro estadual sobre adolescência, onde me incumbiram de falar justamente sobre espiritualidade.

Segue aqui o conteúdo transcrito de minha fala[1] ali sobre o mesmo tema que voltou hoje, em nossa aula de Pesquisa em Psicologia I.

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Quero iniciar minha fala com um trecho do Dalai-Lama. Escrevendo sobre esse tema que por hora nos ocupa, diz ele: “Uma revolução se faz necessária, com toda a certeza. Mas não uma revolução política, ou econômica, ou mesmo tecnológica. (...) O que proponho é uma revolução espiritual”[2].

Uma revolução de espiritualidade! Sim, o Dalai-Lama é um desses magníficos mestres do espírito que vem, junto com tantos outros, tentando fazer as pessoas compreenderem o conteúdo profundo da espiritualidade. Isso porque essa palavra, já consagrada no Ocidente, está atrelada demasiadamente à religiosidade, de forma que seu núcleo essencial ficou quase perdido. Falar em espiritualidade em nossa sociedade é o mesmo que falar em religiosidade. Num primeiro momento permitam-me fazer uma breve distinção entre esses dois conceitos.

Quero pontuar a espiritualidade como fenômeno humano. E por que não dizer, em consonância com o pensamento do grande filósofo Nietzsche, que se trata de um fenômeno “demasiadamente humano”?! Assim, devemos compreender a espiritualidade como expressão de uma das dimensões profundas da experiência humana a que as religiões deram o nome de espírito. Não se trata de algo que seja monopólio das religiões, embora possa perpassar todas elas.

Acreditamos que no seio da religião se encontram grandes testemunhos históricos de ícones de espiritualidade. Da mesma forma como acreditamos que em todos os tempos a religião testemunha também o quanto pode estar diametralmente oposta à espiritualidade. Chamamos, portanto, de religiosidade a todo o construto cultural-simbólico erigido pelo homem na tentativa de codificar a dinâmica da transcendência. O homem é homo-religiosos. No dizer de Leonardo Boff, o homem é um projeto apontado para o infinito. Às produções culturais que veiculam essa faceta humana da transcendência damos o nome de religiosidade. A ela estão apegados o Dogma, os Credos, os ritos, os Livros Sagrados, os símbolos.

Mas não se pode dizer que isso tudo já encerre o que entendemos por espiritualidade.

Enquanto expressão da profundidade do ser humano, eu desejo pensá-la a partir de três eixos fundamentais: ela está atrelada à dimensão da alteridade, do encantamento do mundo e do sentido da vida. É assim que em minha trajetória pessoal tenho cruzado com pessoas profundamente espirituais, ainda que sem nenhuma filiação religiosa institucional. Por essa razão as palavras iniciais dessa reflexão – as do Dalai-Lama – ganham grande importância, porque nosso momento histórico pós-moderno e neoliberal guia-se à base da negação dessas três dimensões.

Nega-se aí a dimensão da alteridade como descartável e desnecessária num ambiente onde vige a competição e o individualismo. Nega-se também a dimensão da alteridade pela massificação da barbárie, que se concretiza nas milhares de vítimas desse sistema excludente no qual vivemos. Nega-se o encantamento do mundo, visto somente como campo da árdua tarefa de viver. Campo de batalha mesmo. Não mais Casa Comum, Mãe Terra, Pachamama ou Jardim Edêmico, lugar de fruição. Por fim, nega-se a dimensão de sentido profundo da existência humana, substituindo-a por uma mesquinha corrida pela satisfação de desejos insaciáveis de consumo.

Diante disso algumas questões que me inquietam: como falar dessa espiritualidade para as crianças, jovens e adolescentes dessa geração? O que dizer-lhes? Por onde começa essa tal “revolução de espiritualidade” ensejada pelo Lama tibetano? Eis algumas pistas a partir da realidade alagoana.

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Alteridade, encantamento do mundo e plenificação do sentido da vida são manifestações espirituais do homem. Não necessitam sequer fazer referência nominal aos símbolos da religião. Nascem espontaneamente nas pessoas. Não necessitam de templos, ritos ou dogmas. Mas mesmo assim são manifestações do sagrado, que, insistimos em crer, é a “vida do mundo” (Giordano Bruno).


[2] Cf. DALAI-LAMA. Uma ética para o novo milênio, p. 22.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

PARTICIPAÇÃO EM SEMINÁRIO SOBRE FILOSOFIA


Essa é uma foto de minha participação num seminário sobre Filosofia ocorrido no último dia 09/11, no Maceió Mar Hotel, na Ponta Verde em Maceió-AL. Falei sobre Filosofia e Pós-modernidade para alunos do ensino médio da rede pública estadual. O resultado foi o melhor possível!!!

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

OBAMA E EU


Tudo começou quando minha amiga Tatiana Paula me disse antes de todos: “Tu és a cara do Obama!”. Mal sabia ela que eu teria que enfrentar essa gozação em todos os lugares que freqüento: igreja, universidade, seminário, roda de amigos... Pensei comigo: “isso só dura até a campanha presidencial desse sujeito terminar”. Porque até ali eu não podia me dar conta de que um negro, filho de mulçumano e com o sobrenome “Hussein” pudesse mesmo chegar à presidência dos Estados Unidos.

Nenhum de nós poderia conceber que um país cuja história registra as formas mais escandalosas (porque cristãs) de segregação racial – vide, por exemplo, a saga da Ku Klux Klan –, país também que assumiu a contra-ofensiva perante o “eixo do mal” marcadamente mulçumano, e que fez de Saddam Hussein um totem disso, pudesse eleger Barack Hussein Obama Jr. seu presidente.

Estamos, portanto, alegres, mas também estupefatos.

E é impossível não estabelecer um paralelo entre Lula e Obama. Lula, na época de sua primeira vitória presidencial, era o ícone da esperança dos pobres. Além de sua significativa militância entre os metalúrgicos do ABC paulista, sua própria biografia depunha em seu favor. Some-se a isso o fim de um ciclo presidencial no Brasil, fortemente identificado com o modelo neoliberal de política, de economia e de sociedade, que foi o governo FHC. Obama representa agora algo similar ao que Lula representou em 2002. Tem uma biografia e uma atuação sócio-política que depõem em seu favor, além de também se situar no fim de um ciclo presidencial já desgastado e desaprovado por uma boa parcela dos estadunidenses e pela comunidade global (pelo menos entre as pessoas sensatas).

Mas se há algo que venho aprendendo com a história da política, é que devemos ser sempre otimistas, mas sem nunca prescindir de sermos bem realistas. Afinal, nenhum de nós recebe hoje com o mesmo entusiasmo de 2002 o mote de Lula: “a esperança venceu o medo”.

Não resta dúvida de que a assunção de um afro-americano à presidência dos Estados Unidos seja um enorme sinal de resignificação dessas relações na sociedade norte-americana. Portanto, cada lágrima derramada por Jesse Jackson, logo após a notícia da vitória de Obama, reserva um mundo de significados. É como se cada uma daquelas lágrimas fizessem uma homenagem silenciosa a cada uma das palavras do inesquecível discurso I have a dream, proferido em 1963, em Washington, por Martin Luther King Jr. Foi assim que vi aquilo tudo.

Todavia, a verdade é que o novo presidente tem diante de si uma enormidade de questões que extravasam os dilemas raciais.

O atentado contra as torres gêmeas em 2001– que permanece injustificado sob todos os aspectos – acabou servindo para legitimar o militarismo demoníaco estadunidense, além de ocultar a presença mortífera desse militarismo que vinha batendo na cifra de mais 500.000 vítimas no Oriente Médio desde a Guerra do Golfo. Ademais, desde então o mundo tem que suportar a vexatória e famigerada presença das forças militares americanas no Iraque, sob o discurso mentiroso e descarado da afirmação dos valores democráticos naquele país. Obama herda esse “balaio de gato”.

As recentes oscilações em Wall Street parecem prenunciar uma reedição de 1929. Apesar de o presidente Lula insistir no absurdo de que a presente crise econômica não afetará seriamente o Brasil, estamos todos convencidos de que o que se prenuncia é uma ampla e profunda reconfiguração no mercado internacional globalizado que de maneira alguma deixará tocar o cotidiano também em nossas terras tupiniquins. Seria a presente crise o último estertor de uma convulsão crônica atrelada a um projeto de desenvolvimento econômico que vai mostrando seus limites e sua ineficácia? Ou o que ocorre com o mercado internacional agora é somente uma azia momentânea para mostrar que uma economia não pode prescindir da total intervenção dos estados nacionais à custa da sobrevivência de seu próprio arranjo interno? Obama também herda essas questões para si.

O primeiro presidente negro dos Estados Unidos herda uma fatídica relação de seu país com os dilemas ecológicos do planeta. Levará ele a que seu país resolva assinar o Protocolo de Quioto, se comprometendo a reduzir a emissão de gazes poluentes na atmosfera? Insistirá ele num modelo de produção de biodiesel assentado no trabalho escravo nos países produtores desses bens primários – cana, soja, etc. – e que também violenta severamente o meio ambiente pelo desmatamento e pelas queimadas? Como intermediará as negociações na Faixa de Gaza? Legitimará o sistemático militarismo israelense naquela região ou dialogará com os “fanáticos homens e mulheres-bomba palestinos” que agem somente em nome de si mesmos e de seus ídolos?

É um farto e considerável leque de questões – e não lembrei nem da metade – que vão exigir muito mais que o carisma pessoal e que os discursos eloqüentes. Nem mesmo os problemas raciais nos Estados Unidos estão resolvidos com a eleição de Obama. Mas sem dúvida esta eleição é um grande sinal de esperança. Queira Deus que ela seja o prelúdio para uma série de outras transições desse tipo.

Quanto a mim, começo agora a curtir quatro anos como sósia de uma celebridade! Oxalá isso me traga sorte!

sábado, 1 de novembro de 2008

UMA REFORMA PROTESTANTE ÀS AVESSAS


Na oportunidade dos 491 anos da Reforma Protestante, aconteceu no SETBAL (30/10) uma mesa redonda onde me coube a provocação inicial. Disponibilizo a todos e todas o conteúdo transcrito de minha fala ali. Espero que a exemplo do momento da fala, o texto agora também possa provocar inquietações e quem sabe uma boa discussão.

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Se a Reforma do século 16 consistiu num afastamento das práticas da Igreja Católica, uma Reforma em nossos dias deveria consistir numa aproximação a outras práticas dessa mesma Igreja. Que quer dizer essa tese estranha?

O Protestantismo se sedimenta no Brasil a partir do século 19, com uma primeira frente a que chamamos de protestantismo de imigração, mas ganha status majoritário no protestantismo de missão: batistas, presbiterianos, episcopais, metodistas, etc.

Mais do que as intenções missionárias, esses grupos protestantes aqui chegados, em maior parte dos EUA, estão imbuídos do ideal político liberal-modernizante. No que ele consiste? Primeiro, numa avaliação do “atraso” da sociedade brasileira como relacionado à hegemonia católica, e, segundo, na pressuposição de que o modelo político liberal-moderno representaria uma oportunidade para vencer o atraso dessa sociedade (daí muitos desses grupos apostarem forte na educação). Missão, para esse protestantismo recém importado, consiste no proselitismo, na luta anticatólica e na construção de uma sociedade que reproduza as condições norte-atlânticas de onde vem esse protestantismo.

E a Igreja Católica? Bem, essa ainda está presa à formatação tridentina, ou seja, a uma auto-percepção de uma Igreja superposta à sociedade, tutora espiritual hegemônica das comunidades, preocupada mais em preservar seu tesouro simbólico do que em servir à sociedade. Missão, para essa Igreja Católica, consiste em preservar sua hegemonia e sua influência social.

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Em meados do século 20 no Brasil fatores de ordem social, política e econômica, exigiriam uma revisão de todos os pressupostos missiológicos tanto de católicos quanto de protestantes. Quais fatores são esses?

O Brasil, país que até a década de 1950 permanecia sendo de base social eminentemente agrária (grande exportador de café, fumo, borracha, açúcar), por ocasião dos governos populistas (com especial acento no governo Kubistcheck), entra no circuito dos países capitalistas tentando sair da mísera condição de exportador de bens primários e inicia seu processo de industrialização. Esse projeto recebeu a alcunha de desenvolvimentista (teoria crítica que teve inclusive como co-criador Fernando Henrique Cardoso).

Muito cedo as contradições desse projeto desenvolvimentista vieram à tona. No lugar do desenvolvimento, o subdesenvolvimento; no lugar da autonomia econômica, a dependência total dos países ricos; no lugar da superação da situação colonial, o neocolonialismo; no lugar do bem-estar social, o acirramento da desigualdade e do fosso entre ricos e miseráveis. E as Igrejas, como reagiram a isso tudo?

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Em nível mundial, eu destacaria o Concílio Vaticano II (1962-1965) como a maior tentativa de reforma eclesial do catolicismo no século passado. Trata-se do concílio de abertura, que, definido rapidamente, representou o desejo de abrir a Igreja para o mundo, ouvir seus clamores e respondê-los pertinentemente. Pressupõe-se que uma estrutura velha não pode dar respostas a desafios novos. Dizia Pablo Richard num artigo recente dedicado à memória de Dom Helder: “o futuro da Igreja não está na aliança com o poder político, mas na encarnação da Igreja na sociedade civil. (...) A promoção humana é o terreno privilegiado da evangelização”. Menciono a seguir uma série de novas estruturas eclesiais alimentadas por esse espírito e surgidas depois do Vaticano II:

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fundada por Dom Helder Câmara, que hoje é responsável pelas anuais Campanhas da Fraternidade; a Conferência do episcopado latino-americano em Puebla (1968), cujas decisões mais importantes inflamaram os anseios da Teologia da Libertação por voltarem-se todas para a realidade de opressão e miséria das maiorias nesses países; o Movimento Bíblico, cuja grande contribuição fora recolocar a Bíblia na mão do povo (embora a liberdade interpretativa esteja sempre sob os rigores do Magistério); as milhares de Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) espalhadas pelo Brasil e cujos anseios, de acordo com Leonardo Boff, refletiam uma nova maneira de ser Igreja (Católica) no Brasil – uma eclesiogênese –, mais descentralizada em termos de poder, mais afeita à participação efetiva dos leigos e mais engajada nos problemas concretos das maiorias pobres; as diversas Pastorais Civis, como a Pastoral da Terra, Carcerária, Universitária e da Criança, que representam a encarnação da igreja nos dilemas mais profundos da sociedade civil; além dos muitos grupos sem vínculo institucional, porém imbuídos do mesmo espírito e amparados pela participação de representantes oficias da Igreja, como as Comissões Justiça e Paz e o Conselho Indigenista Missionário.

Vejam, há algumas questões aí a serem ponderadas. Duas delas são: primeiro, a vantagem católica de ter um centro unificador do pensamento e do comportamento, que é o Vaticano; segundo, boa parte dessas conquistas é produto da “esquerda católica” e dos movimentos marginais. Tenho isso em mente.

Por mais surpreendente que seja, nós, protestantes, também reagimos muito bem a esses novos desafios. As décadas de 1950 e 1960 são, a meu ver, as mais ricas da história de nosso protestantismo brasileiro. Nasceram aí entre batistas, presbiterianos, luteranos, e outros, movimentos marcados pela preocupação com a realidade sócio-política do país.

Mas pergunto: quantos de nós ouviu falar em Richard Shaull e em sua obra? Ou do Setor de Responsabilidade Social da Igreja (SRSI), órgão da Confederação Evangélica Brasileira (CEB)? Ou da União de Estudantes Cristãos do Brasil (UCEB)? Quantos batistas aqui ouviram falar no Manifesto de Ministros Batistas de 1962? Quantos de nós ouviu falar na Conferência do Nordeste de 1963, cujo tema foi Cristo e o processo revolucionário brasileiro, contado com a participação de Paul Singer, Celso Furtado e Gilberto Freyre? Entre 1955 e 1962 o SRSI organizou quatro grandes conferências nacionais. Eis os temas: A responsabilidade social da Igreja (1955); A Igreja e as Rápidas Transformações Sociais no Brasil (1957); A Presença da Igreja na Evolução da Nacionalidade (1960); Cristo e o processo revolucionário no Brasil (1963). Quem entre nós tinha conhecimento disso?

Infelizmente, as forças conservadoras dessas igrejas todas venceram esse espírito. De mãos dadas com o regime militar, identificaram esses ideais como “comunistas”, e baniram o espírito profético do nosso protestantismo brasileiro. Diferentemente de nossos irmãos católicos, não temos hoje em dia muitos frutos perenes dessa época. Infelizmente.

Encurtando o papo: qual nossa tara hoje, e quais as Reformas das quais nos orgulhamos? Quais são os temas de nossos encontros e congressos? Eu digo: Igreja com Propósitos, Igreja em Células, G 12, G 5, e os demais genéricos... Isso porque estou falando do protestantismo de missão e não do neopentecostalismo e suas variantes. Por que não voltar a semear a mesma reforma daquele nosso protestantismo? Não seria essa uma grande Reforma para o nosso tempo?

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Termino mudando um pouco a minha tese inicial: Se a Reforma do século 16 consistiu num afastamento das práticas da Igreja Católica, uma Reforma em nossos dias deveria consistir numa aproximação a outras práticas dessa mesma Igreja e num reavivamento do nosso espírito profético das décadas de 50 e 60. Deixe eu citar pra vocês ainda um trechinho do maior profeta brasileiro do século 20, Dom Helder Câmara:

“Nunca se deve temer a utopia. Agrada-me dizer e repetir: quando se sonha só, é um simples sonho, quando muitos sonham o mesmo sonho, é já a realidade. A utopia partilhada é a mola da história”.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

DE VOLTA AO SAMBA DE UMA NOTA SÓ


Semana passada, durante um estudo bíblico em nossa comunidade aqui na Forene, fiz uma digressão no tema e voltei ao espinhoso caso da relação entre os usineiros da cana de açúcar e a sociedade alagoana. Depois daquela exposição fiquei meio abatido. Fiquei com a impressão de que o povo já estava meio enfadado de me ouvir falar daquilo. Senti que minha fala já não rendia mais nada. Me senti como quem entoa um “samba de uma nota só”. Decidi esquecer esse assunto por hora.

Mas aí, nesse fim de semana fui parar em Luziápolis, pequeno distrito do agreste alagoano. Fui a convite de meus amigos John e Bia, que trabalham há um ano junto à recém formada Igreja Batista naquela localidade.

Em Luziápolis foi impossível não voltar ao meu “samba de uma nota só”!

Assim que cheguei quis dar uma volta. E logo algumas questões ficaram muito claras. São aproximadamente dezesseis mil pessoas que vivem ali, numa cidade totalmente plana, sem ladeiras. Não há pavimentação e saneamento básico para quase noventa por cento da população [mas há muita propaganda política pelas ruas!]. Não há assimetria social porque simplesmente todos pertencem à mesma condição sócio-econômica de pobreza. O distrito, na realidade, se constitui num lugar de descanso para os trabalhadores das usinas sucroalcooleiras do entorno, sendo a principal a Usina Sinimbu. O que antes era um “lugar de pouso” para esses trabalhadores, por via das necessidades provocou o sedentarismo dos mesmos ali. Fez-se assim Luziápolis.

Enfim, Luziápolis é um desses cantos de Alagoas que empresta a sua existência à manutenção da concentração da riqueza produzida nesse chão.

John me levou a uma caminhada por aquelas ruas. Fez questão me dizer que estava empenhado na tarefa de catalogar as instituições religiosas ali presentes. “São dezesseis igrejas evangélicas”, me dizia ele, além da Igreja Católica. Então nos pusemos a cogitar sobre esse fato. A maioria dessas igrejas, como não é de espantar, são neopentecostais, ou como chamaria Martin Dreher transconfessionais, isto é, novas congregações sem qualquer vínculo denominacional ou confessional. O discurso da sociologia religiosa acerca da relação neopentecostalismo/pobreza tem insistido numa hermenêutica inflexível que vê no neopentecostalismo ou uma das formas religiosas da ideologia neoliberal, ou um sufrágio psíquico-religioso bem apegado ao modelo das hipóteses marxistas – a religião como ópio do povo.

Se os pobres, como dizemos, devem ser os sujeitos de sua própria libertação, por que resistimos aos caminhos de libertação eleitos por eles mesmos, taxando-os de ideológicos? Libertação será sempre a nossa idéia de libertação?

Pelo que pude notar, em Luziápolis também temos uma boa amostra de uma sociedade visceralmente patriarcal. A própria Igreja Batista ajuda nessa percepção, embora seja ainda um grupo pequeno. Não há homens entre seus membros. Pela primeira vez em minha vida estive numa congregação eminentemente feminina. Cem por cento! Conforme John, isso é um pequeno reflexo das relações de gênero ali presentes. As representações sociais forjadas acerca da família seguem fiéis aos parâmetros coloniais-patriarcais: o homem trabalha fora, sustenta a casa, e vadeia entre outras mulheres, enquanto a mulher cuida da casa, vai à igreja e suporta elegantemente o vexame da traição conjugal. Ao que parece, faltam ainda estudos dedicados às relações entre o imperialismo da cana e a sociedade patriarcal no Nordeste. Sem dúvida, essa relação é estreitíssima.

Todos nós andamos meio dependentes do “mundo virtual”, assim mesmo como o drogado depende de sua droga. Já não podemos conceber nossas vidas sem essa coisa. Então, saí à cata de uma lan house. Encontrei. Lá dentro uma outra imagem provocadora reunia os mundos do Norte e do Sul: garotos fascinados com a interconectividade dessa teia chamada Internet. Fiz questão de olhar seus rostos. Eram todos rostos marcados pelo trabalho infantil. Marcados em sentido literal. Cicatrizados mesmo pela dura lida, certamente do corte da cana. Ali, de mãos dadas, o submundo do trabalho infantil nos canaviais e o mundo da interatividade eletrônica. Uma síntese interessante que revela o desejo de libertação do flagelo da miséria, libertação da castração da alegria e libertação dos condicionamentos impostos por homens sem coração. Os meninos da lan pareciam dizer que queriam mais que uma foice e uma enxada: queriam o mundo!

E, como se vê, eu não pude deixar de regressar ao meu “samba de uma nota só”. É preciso continuar falando, escrevendo, fazendo, pensando, sonhando, estimulando, esclarecendo, pesquisando, enfim, buscando a chave que desvende o segredo para uma sociedade mais justa. Aqui em Alagoas, não se pode fazer isso sem fazer referência a esse “samba de uma nota só” que é a opressão sucroalcooleira.

sábado, 18 de outubro de 2008

O NOSSO LINDEMBERG


Que novas lições pode nos oferecer o desfecho trágico do caso envolvendo os jovens Lindemberg e Eloá?

Serviria ele para nos lembrar outra vez os aspectos sombrios da natureza humana? Não, nisso a vida nossa de cada dia é pródiga. Serviria este caso para nos lembrar dos perigos irracionais de uma paixão neurótica? Também não. Eu e você já conhecemos a fundo essa história, seja por meio da própria mídia, seja por meio da dramaturgia ou quem sabe por meio de algum infortúnio desse tipo experimentado ou perto de nós ou por nós mesmos. Serviria esse caso para nos alertar contra a voracidade sensacionalista e carniceira da TV pelos pontos no IBOP? Não, é seu procedimento de todo fim de tarde. Então, serviria esse caso para nos alertar acerca do despreparo e da imperícia de nossa polícia? Também não. Precisaríamos ser pessoas muito mal informadas para chegarmos a essa conclusão somente agora.

Minha conclusão pessoal, portanto, é: esse caso não nos ensina nada novo. Nada acrescenta a nossa percepção das coisas humanas. Nada traz de inédito quanto a nossa visão das potencialidades latentes do ser humano. Somente confirma aquilo que sabemos: somos anjos e demônios ao mesmo tempo.

[Mas ainda assim dói]

Toda cultura humana pode ser entendida como um esforço do homem no sentido de transcender sua condição animal. Religião, arte, ciência, filosofia, são todos parceiros desse esforço colossal. As instituições sociais são as entidades responsáveis por nos inserir no mundo da cultura humana. A igreja, a escola, a família, o clube, são os locais aonde vamos internalizando esse mundo humano.

Quando eu era criança, a Globo exibia uma série chamada Humanimal. Basicamente se tratava de um sujeito (não me lembro o nome) cujo metabolismo permitia-lhe mutações biofísicas das mais diversas. O resultado era um híbrido. Hora homem-lobo, hora homem-águia. Tava na cara o que se pretendia com aquilo. Tava na cara que era uma forma disfarçada de resignação diante de nossa condição animal. Era uma espécie de rendição a isso.

A cultura humana, fortemente impregnada de idealismo, não quer somente saltar sobre a nossa condição animal. Quer, ademais, subjugá-la. A religião, via de regra, procura projetar na exterioridade essa condição intrínseca da experiência humana e dar-lhe nomes como espíritos, diabos, demônios e satans. A filosofia, como caminho refinado do homem, fez parecido. Chamou esses conteúdos de paixões e afetos, negando-lhes sempre como inimigas do homem e da razão, sua princesa. A diferença é que nunca deu estatuto ontológico nem aos afetos nem às paixões. Algumas das ciências humanas não fizeram diferente. Entre elas a psicanálise. A Jung, pelo menos, devemos reconhecer a coragem de tentar “integrar” esse aspecto animal do homem (a que chamava de “sombra”) na experiência da personalidade. A finalidade, todavia, também é domesticá-la. E com razão, óbvio. Caso contrário seria a barbárie.

Lindemberg e sua paranóia passional nada nos acrescentam de novo. Pelo contrário, nos recordam uma lição antiqüíssima. Nos lembram de uma obviedade sempre negligenciada: estamos acima dos animais em tudo – tanto no bem quanto no mal. Porque nenhum animal é capaz do bem altruísta, só o homem. Mas também nenhum animal é capaz da violência premeditada e sem razões pragmáticas, só o homem.

E sem querer ofender, o caso também nos lembra que, dados os devidos ingredientes e o devido contexto, eu e você podemos despertar o “nosso Lindemberg” latente. Ou antes disso tudo Lindemberg não passava de um “Paulo”, de um “José”, de um “Antonio” e de um “João”? É um sobreaviso da vida. Nada disso justifica a ninguém. Todas as implicações legais devem ser impetradas com o máximo rigor possível em quaisquer casos dessa natureza. Mas a ira nessas horas tende camuflar essa realidade vergonhosa de nós mesmos: somos todos um pouco Lindembergs.

Deus nos ajude a mantê-los bem domesticados em nós.

Amém!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

ENTRE O VAREJO E O ATACADO, A VIDA


É inegável que quanto mais nos submergimos no mundo das letras e da ciência, menos leves vamos ficando. Nietzsche já se preocupava com esse assunto. Vamos ficando mais duros, mais fechados, mais altivos e até os de nariz chato sentem um leve empinar. Não é regra geral, mais é uma média considerável. Perante o acúmulo de conhecimentos vamos ficando mais metidos, pretensamente sabedores das coisas, e já sentimos certa inconformidade com o antes tão natural “senso comum”.

Descartes e Popper, dois filósofos que militaram em frentes tão distantes tanto do ponto de vista do tempo quanto do ponto de vista ideológico, concordam que o acúmulo de conhecimentos deve nos conduzir numa direção bem oposta do que comumente vemos. Ambos concordam que quanto mais nos enriquecemos intelectualmente, mais humildes devemos nos tornar. Ambos justificam semelhantemente sua posição: quanto mais progride nosso tesouro intelectual, maior ainda se torna o tamanho de nossa ignorância. Quanto mais sabemos sobre o mundo, maior aumenta o mistério do mesmo.

Quanto mais vai crescendo nossa percepção científica das coisas (falo em sentido lato, tanto em relação às Ciências Humanas quanto às Naturais ou Formais), mais tendemos a nos distanciar das questões ordinárias com as quais lidamos no cotidiano. Não sei por que, mas as “grandes preocupações” da ciência acabam por transformar em “pequenas preocupações” aqueles fatos da lida diária nos quais nos movemos.

De repente, importantes para nós são somente as questões de conjuntura política ou econômica, por exemplo. De repente, o indivíduo some de nossa linguagem. Dá o lugar ao estéril “social”, que ao querer enredar a todos não enreda ninguém. Foi-se o mundo do dia a dia, com seus problemas, suas questões próprias, suas alegrias, desafios e tristezas.

Até que uma catástrofe nos ocorre, ou a alguém de nosso círculo íntimo. Então voltamos para o mundo onde a vida das pessoas, uma a uma, volta a ser tão grande quanto as grandes questões conjunturais. Então lembramos que não podemos reduzir o mundo a um grande atacado. Há nele um varejo que não pode ser desprezado.

***

Ela anda bastante aflita. Sua mãe está doente. Sua irmã foi fatalmente vitimada pela mesma doença. Morreu aos trinta anos de idade. Agora, a situação de sua mãe traz de volta a angústia do tempo em que sua irmã sofreu com o enfrentamento da enfermidade. Ela é crente. Adulta, independente e feliz. Mas os últimos exames médicos de sua mãe sacudiram seu chão. “Tudo outra vez”, foi o primeiro raio de pensamento que lhe veio à mente.

Tive que voltar para o mundo onde a vida das pessoas se desenrola concretamente. Pude ver como é difícil dizer alguma coisa aí quando só queremos pensar em conjuntura político-econômica. Como é difícil dizer alguma coisa boa aí quando só queremos pensar no método científico, ou em metafísica ou em ontologia. Deveríamos ouvir mais a Fernando Pessoa, que dizia que “há muita metafísica em não pensar em nada...”. Vi que fiquei meio vesgo nesse canto a vida, e que quanto mais minha visão cresce em profundidade – que é a tarefa das ciências – mais ela perde em extensão. Esses cantos da vida querem ouvir também a nossa palavra. Mas aí as palavras polidas e refinadas desses “saberes superiores” da ciência mostram os seus limites. Elas simplesmente não fazem o menor sentido nesses cantos onde a vida geme, onde o corpo enfrenta seus limites biológicos, onde a própria vida reclama por sentido, onde suamos frio à noite e pressentimos a morte. Calam-se os cientistas. Fala o povo com aquilo que o povo tem: o coração...

Nessa hora, se o estudioso for esperto o bastante, volta a ser povo.

Voltam-lhe os significados da fé, a irmandade com o senso comum, e a palavra doce e terna que traz alento ao sofrimento da vida. Volta-lhe a dimensão pessoal e singular de cada indivíduo. Volta-lhe a convicção de que cada pessoa, com sua dor e seu sofrimento, com sua alegria e seu carisma, é tão importante quanto o mundo inteiro que vive de conjuntura político-econômica. Volta-lhe a sensatez de pensar sobre conjuntura político-econômica nos artigos, nas palestras e nos fóruns, ao mesmo tempo em que pensa nas pessoas, uma a uma, e no universo de fatos bons e ruins em que cada uma delas está submersa. Se freqüenta o poço da fé e da esperança, o estudioso, mesmo o apaixonado por conjuntura político-econômica, terá sempre uma palavra que seja pertinente às dores de cada pessoa com quem se relaciona.

Honestamente, prefiro ser ouvido (ou quem sabe também ouvir) por alguém que sofre e dizer-lhe alguma palavra do povo, do que somente dizer alguma palavra da ciência sobre conjuntura político-econômica quando sei que aí é muito mais difícil ser ouvido. Mas fazer ambas as coisas também não é nenhum pecado.