sábado, 24 de outubro de 2009

FOUCAULT E A TEOLOGIA


Condições de possibilidades para um diálogo fecundo


"Quando percorrermos as bibliotecas, persuadidos desses princípios, que destruição deveríamos fazer? Se examinarmos, por exemplo, um volume de teologia ou de metafísica escolástica e indagarmos: contém algum raciocínio experimental a respeito das questões de fato e de existência? Não. Portanto, lançai-o ao fogo, pois não contém senão sofismas e ilusões".

(David Hume, Investigação sobre o Entendimento Humano)

Eu não posso negar o estranhamento que me invade ao fim de cada aula da disciplina Foucault e a Psicologia. Então entramos no reino daquelas coisas que só podem ser ditas por metáforas. E a mais ajustada que encontro é a de uma tesoura me rasgando a alma. E não se trata daquela fase crítica juvenil pela qual passam meninos e meninas crentes egressos nos ambientes universitários. Em minha auto-percepção considero essa fase como vencida. De outra forma, se trata do exercício da coerência intelectual, que deve crescer na medida em que avança nossa jornada epistêmica.

A evidência de que o que digo aqui não está ligado a uma crise de fé, mas à honestidade intelectual, está nas perguntas com que desejo me aproximar daquele filósofo francês contemporâneo: Em que medida Michel Foucault pode se constituir como parceiro dialogal em Teologia? Existem intersecções entre seu projeto intelectual e as re-significações que temos buscado para a tarefa teológica hoje? Quais as chances de uma aproximação entre esses dois projetos? Muito embora minha iniciação aos temas foucaultianos seja ainda bastante verde, eu desejo arriscar a hipótese de que este é um diálogo com boas possibilidades.

Uma advertência prévia, no entanto, é necessária. Estou ciente de que as mediações filosóficas em Teologia estão mais ou menos em desuso em nossos dias. A América Latina, graças à Teologia da Libertação, assistiu à irrupção das Ciências Sociais como parceiras privilegiadas do debate e da metodologia teológica. E com muito acerto! Mas em Foucault temos um pensador interdisciplinar cuja crítica se volta para um amplo leque de temas do interesse coletivo. Nele as fronteiras disciplinares não aparecem tão óbvias, de tal maneira que o rótulo de “filósofo” lhe cabe apenas como etiqueta intelectual. E ao chamá-lo de filósofo, jamais devemos pensar nas imagens clássicas do teórico perdido em abstrações que pouco dizem à vida concreta das pessoas. Os temas foucaultianos, pelo contrário, estão entre aqueles mais prementes na agenda de discussões públicas: sexualidade, saber/poder via práticas discursivas, relações sociais de dominação, (bio)poder, (bio)política, etc.

As minhas primeiras impressões acerca do projeto intelectual de Michel Foucault é a de que ele repete o movimento empreendido pelas Ciências Humanas em relação aos postulados religiosos, a partir do século XIX. Em outras palavras, a crítica desferida pelas Ciências Humanas em direção às práticas e discursos religiosos, em Foucault se repetem em direção àquele conjunto de saberes que em nosso tempo vêm galgando o status de “saberes hegemônicos” – majoritariamente os saberes ditos científicos. E embora se elucidem os “jogos de verdade” em todos esses movimentos, em Foucault não temos uma discussão de nível ontológico, ou uma guerra de verdades. Nele, a atenção está direcionada para os efeitos concretos da imposição que certos saberes instituem e naturalizam. Como exemplo rápido, pode-se mencionar a crítica foucaultiana aos saberes científicos que legitimaram por muito tempo as práticas psiquiátricas de controle, disciplinamento e subjugação dos corpos de uns homens por outros.

Três grandes tendências intelectuais do século XX são rejeitadas por nosso filósofo. São elas: os humanismos de todas as categorias, as meta-teorias e a noção de ideologia debitária do materialismo histórico-dialético. A rejeição aos humanismos se radica na negação explícita a qualquer coisa que se pareça com os ideais de uma “natureza humana”. A rejeição às meta-teorias se radica na recusa de todos os construtos teóricos pretensamente oni-abrangentes, e pretensamente aplicáveis em todo e qualquer contexto geo-histórico. E a rejeição ao conceito de ideologia se radica na recusa da tensão falsa consciência X verdadeira consciência. Verdadeiro e falso seriam categorias valorativas que no fundo servem igualmente aos jogos de poder.

É difícil e injusto eleger um termo ou uma fórmula que resuma o projeto intelectual de alguém com uma obra tão extensa como a de Michel Foucault. Mas se me fosse imposta essa obrigação, eu escolheria a fórmula “desnaturalização de nossa relação com o mundo”. Não se trata de negar o mundo tal como é, nem de eliminar todas as relações de poder que nele encontramos. Mas se trata de repensar nossa relação com o mundo a partir de uma relação não-naturalizada com as coisas. Conforme nosso filósofo, somente aí está a possibilidade de resistência nas chamadas “sociedades de controle” como a nossa. Muito embora uma boa parte dos intelectuais dedicados ao estudo de sua obra insista na afirmação de que em Foucault não temos um trabalho de tipo “sistemático”, o tema da desnaturalização de nossa percepção do mundo – da sexualidade, das relações de gênero, do saber científico, da política, etc. – está presente em quase todos os seus livros.

Não nos é possível nesse pequeno artigo penetrar em cada um desses temas numa perspectiva foucaultiana. Necessitaríamos de algum tempo a fim de entendermos a arqueologia e genealogia enquanto ferramentas metodológicas de investigação científica usadas por Foucault. Mas diante do que já expomos aqui, penso ser possível arriscar algumas hipóteses quanto à possibilidade de uma aproximação dialógica da discussão foucaultiana junto à Teologia.

Com efeito, é preciso dizer que esse diálogo não é possível em relação a todas as Teologias.

Primeiro, ele é viável somente a um tipo de Teologia disposta a servir como um dos saberes na construção de formas mais humanas de convivência social. E sabemos que nem todas as Teologias estão interessadas nisso. Para citar uma pequena afirmação de Foucault, essa Teologia também deve estar disposta a trabalhar na construção de uma sociedade onde “os jogos de dominação se dêem num nível mínimo possível”. Em segundo lugar, esse diálogo só possível a uma Teologia que esteja disposta a abrir mão das concepções naturalizadas religiosamente acerca da conduta humana. Pierre Bourdieu dizia que as religiões cumprem uma “função estruturante” nas sociedades, isto é, elas legitimam teologicamente a estruturação da vida social e dos comportamentos humanos. Portanto, para esse diálogo, a Teologia deverá estar disposta a reconsiderar esse papel estruturante, e adotar uma concepção histórica do ser humano, como ser que se faz e se refaz durante seu caminhar no mundo. Numa palavra, esta deverá ser uma Teologia disposta a renunciar a todo tipo de pré-conceito, sobretudo aqueles que derivam de uma leitura desatenta do texto bíblico.

Não estou muito seguro de que a fé bíblica dê vazão à enormidade de tipificações e pré-conceitos com os quais nossas Teologias têm classificado os seres humanos. Não estou muito seguro de que seu interesse esteja em nos fornecer imagens estanques e modelos a-históricos dos seres humanos, válidos em todo tempo e em todo lugar. Não estou muito seguro de que ela postule padrões fixos e heterônomos que devem ser aplicados às sociedades via o trabalho das igrejas. Desconfio que a fé bíblica assuma o caráter histórico da conduta humana, e aceite com muita tranqüilidade esse fazer-se e refazer-se que os seres humanos empreendem historicamente. Em resumo, não estou muito certo de que a Bíblia sirva para legitimar religiosamente nenhuma imagem fixa sobre os seres humanos. E vou caminhando para uma conclusão com um exemplo para essas desconfianças.

O tema das relações familiares tem sido, pelo menos para os Cristianismos que encerraram o século XX e entraram no século XXI, um dos focos centrais da preocupação das igrejas. Sobretudo para as tradições ligadas ao Protestantismo, os valores familiares foram se constituindo como objetos de preocupação central do cuidado pastoral e eclesial. A família aparece aí como um valor que relativiza todos os demais, e no caso do Protestantismo, ela está acima até mesmo do trabalho e das práticas religiosas. Além disso, a ênfase nos valores familiares está assentada numa leitura bíblica que elegeu um modelo familiar como natural, em função de sua “procedência divina”. Esse modelo coincide com o modelo de família patriarcal imposto pelo contexto Greco-romano que deu origem aos escritos neotestamentários, embora esse fato dificilmente seja realçado nos discursos religiosos.

Diante dessa realidade, a irrupção de novos modelos familiares como contrapontos ao modelo patriarcal – famílias mono-nucleares (de mães ou pais que optaram pela condição de solteiros), mono-genêricas (baseadas na união estável de duas pessoas do mesmo sexo) – tem sido vista com muita suspeita pelas igrejas. Invariavelmente esses modelos familiares emergentes vão sendo tipificados como “aberrações”, ou como “desvios” e “modismos” em relação àquilo que é natural, porque divinamente instituído. À despeito da qualidade das relações humanas presentes nessas experiências, o modelo alternativo em si mesmo é alvo de pré-conceito numa leitura desse tipo.

É curioso que a narrativa bíblica dê testemunho de variados modelos de convivência familiar e nunca ponha em cheque o modelo em si mesmo. É curioso que a narrativa bíblica prefira apontar sempre para a qualidade das relações entre as pessoas, qualquer que seja o modelo em voga: a monogamia de Abraão, a poligamia de Jacó, Elcana e David, por exemplo, ou mesmo o modelo monogâmico patriarcal presente no período neotestamentário. É curioso que o próprio Jesus de Nazaré não tenha posto o modelo em cheque, mas tenha se preocupado com a qualidade das relações dentro do modelo vigente em seus dias, protegendo as mulheres da coisificação a que estavam sujeitas junto aos seus maridos. É a isto que se volta sua palavra de negação ao divórcio: contra a banalização e a coisificação da mulher, e não à naturalização do modelo monogâmico patriarcal.

Para fechar, uma última advertência: Foucault não nos oferece nenhum programa de ação. Não há receituários em seu legado intelectual, e não estamos em busca disto. Buscamos parceiros de diálogo. Buscamos olhares que nos ajudem na humanização da sociedade, e que consideremos condizentes com a tarefa que temos como teólogos e teólogas hoje. Portanto, o referencial permanece sendo o Evangelho, e o programa de ação deve ser decidido do lado de cá, entre nós, teólogos e teólogas. E não há subordinação da Teologia a nenhum construto intelectual contemporâneo, pois isso seria infantil e antievangélico.

Mas reconhecemos que a compreensão dos processos de naturalização das relações humanas pode nos ajudar a decantar de nosso discurso teológico uma última camada de pré-conceitos e naturalizações religiosas ainda presentes mesmo nas Teologias mais progressistas. O problema da naturalização de certos aspectos da vida social, reiteramos, está nos efeitos nocivos que daí decorrem: tipificação, marginalização, exclusão, etc. É contra eles que pretendemos nos precaver. E nisso reconhecemos em Michel Foucault um parceiro epistemológico muito interessante.

Um comentário:

JEYSON MESSIAS RODRIGUES disse...

Paulo,

Gostei muito do seu texto e de sua apresentação do pensamento foucaultiano. Propor um diálogo entre o filósofo e a teologia mesmo sem submetê-la à autoridade daquele ou à palavra última de quaisquer fala científica também me parece muito interessante. Ainda não conheço o pensamento de Foucault, mas essa relativização das "naturalidades" socialmente construídas me lembram um teórico muito importante pra mim e me dão a impressão de que Foucault vai além do que Peter Berger (A construção social da realidade / O dossel sagrado etc.) propõe, visto que enquanto Berger apenas apresentou de forma descritiva o caráter sócio-cultural de tais construções, Foucault, aponta algumas estruturas do pensamento dominante, questiona a manutensão de tais estruturas, chegando a criticar aquilo a que você se refere como sendo saberes hegemônicos, canonizados mesmo na academia? (rsrs). Poderíamos, assim, dizer que ele propõe a desconstrução de algumas construções e mesmo de algumas desconstruções, como no caso de sua crítica à noção de ideologia a partir do materialismo histórico-dialético. Concordo contigo. Parece que temos sim elementos interessantes para um diálogo que promete. Parabéns pelo texto. Como já estamos acostumados, é centrado, coerente, bem fundamentado e muito inteligente.