sexta-feira, 21 de outubro de 2011

RESENHA DE “CINCO MENTES PARA O FUTURO”


GARDNER, Howard. Cinco mentes para o futuro. Tradução de Roberto Cataldo Costa, Porto Alegre: Artmed, 2007, 159p.
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Me surpreendi com a leitura de Cinco mentes para o futuro, do psicólogo norte-americano Howard Gardner. Certamente isso se deve à expectativa em torno dessa leitura, ligada ao trabalho pregresso de Gardner.
Howard Gardner é um prestigiado psicólogo cognitivista, que se tornou mundialmente conhecido por conta da Teoria das Inteligências Múltiplas[1]. As definições da inteligência humana quase sempre estiveram circunscritas ora ao raciocínio lógico-matemático, ora à capacidade de resolução de problemas e processamento de informações, quando não à mera capacidade mnemônica. O próprio conhecimento psicológico ajudou a popularizar esses reducionismos por meio dos famosos testes de quociente de inteligência (QI). Inteligência, nesses termos, se resume às capacidades cognitivas ligadas às operações de raciocínio lógico-abstrato e formal, altamente valorizados pela cultura ocidental.  
Com a Teoria das Inteligências Múltiplas, Gardner propõe elevar ao status de inteligência algumas capacidades humanas antes descritas apenas como “habilidades” ou “talentos”. Dessa forma, as capacidades sinestésico-corporais, as habilidades musicais e linguísticas, as habilidades espaciais, interpessoais e intrapessoais, e também as habilidades lógico-matemáticas, são elevadas ao status de inteligências. Há grande profusão de publicações entre livros e artigos, do próprio Gardner e de seus colaboradores, destinados à difusão da Teoria das Inteligências Múltiplas. Por motivos óbvios, Gardner tornou-se um teórico de interesse para diversos campos acadêmicos, sobretudo para a pedagogia. No Brasil, no campo dos estudos pedagógicos, Celso Antunes tem sido o maior difusor dessa teoria[2] 
Em minha opinião, a novidade de Cinco mentes para o futuro consiste no fato de se tratar de livro de opiniões, distinguindo-se do estilo anterior de Gardner, balizado por um amplo aparato empírico e heurístico. Platão compreendia a tarefa da filosofia como o movimento da doxa (doxa = opiniãopara a episteme (epistémé =conhecimento). Gardner, com Cinco mentes para o futuro, parece ter feito o caminho inverso.
Gardner tem em mente as demandas culturais do futuro – principalmente aquelas do universo da educação e do trabalho –, e seu livro consiste numa espécie de bússola para os cidadãos que estiverem dispostos a ter um lugar nesse futuro. Aqui já aparecem, a meu ver, alguns pontos passíveis de crítica nesta obra. Gardner não chega a problematizar os arranjos culturais, políticos e econômicos aos quais se refere. Toma-os como realidades objetivas com as quais os sujeitos devem adaptar-se. Portanto, o livro é marcado por uma postura profundamente acrítica, e por vezes propagandística em relação às configurações de mercado. Sua preocupação é oferecer pistas de sobrevivência a um arranjo cultural, notoriamente identificado com o american way of life.
Em sua prescrição, cinco tipos de mentes estarão mais aptas à sobrevivência nos arranjos culturais do futuro: a mente disciplinada, a mente sintetizadora, a mente criadora, a mente respeitosa e a mente ética. Em nosso entender, o que Gardner descreve como “tipos de mente”, deveria ser descrito como “habilidades mentais”. É bem verdade que dificilmente um indivíduo consegue desenvolver todas as habilidades mentais aqui listadas. Há aqueles que se especializam em uma ou em outra, e aqueles que conseguem ter certo domínio de mais de uma dessas habilidades. Mas não estamos certos de que as aptidões cognitivas de um indivíduo possam ser reduzidas a uma dessas habilidades mentais, de tal maneira que se configure como um “tipo de mente”. Assim, em lugar de falar em um indivíduo com uma “mente sintetizadora”, por exemplo, preferimos falar em indivíduos com grandes potenciais de sínteses, entre outras habilidades mentais.
Para Gardner, a mente disciplinada é aquela marcada pela capacidade de empregar as formas de pensamento associadas a importantes disciplinas acadêmicas (história, matemática, ciências, arte, etc.) e importantes profissões (direito, medicina, gestão, finanças etc., bem como ocupações e ofícios), além de ser capaz de se aplicar de forma diligente, melhorando permanentemente e continuando além da educação formal.
mente sintetizadora seria aquela capaz de escolher as informações cruciais entre a enorme quantidade disponível, e de organizar essa informação de maneira que façam sentido a si e aos outros.
mente criadora seria aquela capaz de ir além do conhecimento e das sínteses existentes para propor novas questões, oferecer novas soluções, realizar trabalhos que levem mais longe gêneros atuais ou configurem novos, sendo que a criação parte de uma ou de mais disciplinas estabelecidas e requer um “campo” informado para fazer julgamentos de qualidade e aceitabilidade.
mente respeitosa seria aquela capaz de buscar responder de forma simpática e construtiva a diferenças entre indivíduos e grupos, buscar entender e trabalhar com aqueles que são diferentes, e ir além da mera tolerância e da atitude politicamente correta.
mente ética seria aquela capaz de abstrair características cruciais de seu papel no trabalho e como cidadão e agir de forma coerente com essas conceituações, além de esforçar-se para realizar bom trabalho e boa cidadania.
Gardner disserta sobre cada uma dessas mentes buscando fazê-lo a partir dos contextos educacional e do trabalho. É daí, majoritariamente, que surgem seus exemplos, e é para as demandas futuras da educação e do trabalho que suas prescrições são direcionadas. Como bom cognitivista, há também uma preocupação com a periodização do surgimento e do desenvolvimento de cada uma dessas mentes, sendo que a maioria dos atributos relacionados com cada uma delas surge, para Gardner, na infância, tendo forte ligação com os estímulos da educação formal. Gardner também faz questão de apresentar as possíveis “pseudo-formas” para cada uma dessas mentes. Por exemplo, a atitude de mera tolerância frente à diversidade, conforme Gardner, pode se constituir como uma pseudo-forma da mente respeitosa.
A despeito das críticas aqui apresentadas, eu recomendaria Cinco mentes para o futuro, sobretudo àquele público que agora inicia a trajetória intelectual. Como disse antes, os tipos de mentes aqui tratadas devem ser encaradas como “habilidades mentais” a serem cultivadas por qualquer pessoa. O cultivo dessas habilidades pode ser extremamente útil para aqueles(as) que desejam se enveredar na atividade intelectual (que não é sinônimo de carreira acadêmica). No entanto, eu ressaltaria mais uma vez o risco de se discutir epistemologia sem discutir política, como vem sinalizando o trabalho de Bruno Latour[3]. A ciência não pode ser vista como uma atividade politicamente neutra. Neste caso, em lugar de recomendar “cinco mentes” que se adéqüem ao futuro, eu preferiria recomendar “cinco mentes que problematizem o futuro”.


[1] Cf do autor: GARDNER, Howard. Estruturas da mente: a teoria das inteligências múltiplas. São Paulo: Artmed, 1996; Inteligências múltiplas: a teoria na prática. São Paulo: Artmed, 2000; Inteligência: múltiplas perspectivas. São Paulo: Artmed, 2001; Inteligência: um conceito reformulado. São Paulo: Artmed, 1998.
[2] Veja ANTUNES, Celso. As inteligências múltiplas e seus desafios. Campinas: Papirus, 2002; Jogos para a estimulação das inteligências múltiplas. Petrópolis: Vozes, 1999.
[3] Cf. LATOUR, Bruno. Políticas da natureza: como fazer ciência na democracia. Bauru: EDUSC, 2004

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

MARCOS MONTEIRO: UM PESCADOR DE HUMANIDADE

Inspirado no artigo do Pr. Edvar Gimenez, e movido pela passagem do sexagésimo aniversário do Pr. Marcos Monteiro ocorrido no último dia 12 de outubro, publico meu texto-homenagem dedicado a uma das figuras de maior impacto na minha vida.

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MARCOS MONTEIRO: UM PESCADOR DE HUMANIDADE
Conheci Marcos Monteiro no ano de 2001, um ano antes da conclusão do curso teológico no STBNe, em Feira de Santana. Naquele ano, ela havia trabalhado com a disciplina Exegese do Novo Testamento, e havia também formado um grupo de estudos que se reunia todas as segundas-feiras em sua própria casa, no campus do seminário. Nós, que estudávamos no turno matutino – nessa época o STBNe ainda oferecia turmas nos turnos matutino e noturno –, não tínhamos aulas nas segundas-feiras. No entanto, o fascínio imediato que a pessoa de Marcos me provocou, fazia com que eu me deslocasse de Muritiba para Feira de Santana todas as segundas-feiras, a fim de participar das atividades do grupo de estudos.
Àquela altura, pelo menos para mim, o contato com alguns professores do STBNe já havia produzido mudanças profundas na maneira de enxergar a fé cristã e a missão das igrejas na sociedade. Não se tratava apenas de uma teologia interessada em derrubar mitos e questionar convicções alheias. Mas de uma teologia com sabor de vida, interessada nas questões mais urgentes que concerniam à vida concreta das pessoas. Marcos aprofundou essa orientação não apenas com o poder da grande erudição que detém, mas com um estilo de vida simples que nos constrangia e nos inspirava. Sob esse impacto feito à base de carisma, simplicidade e erudição, não tive dúvidas sobre quem escolher como orientador dos estudos monográficos. Os temas da Psicologia já me interessavam a essa época, e em meio a muitas dúvidas e indefinições, Marcos me ajudou a dar corpo a um antigo trabalho sobre o tema da religião na obra de Freud. Lembro-me dos encontros de sexta-feira dedicados à orientação, e de como ele me disponibilizava um bom número de livros de sua biblioteca particular.
Também não posso deixar de mencionar todo o fomento oferecido a mim por Marcos, para que eu prosseguisse nos estudos acadêmicos depois da graduação em Teologia. Na época, o STBNe tentava dar corpo a um projeto de Mestrado em Teologia, e Marcos chegou a me subsidiar com uma parte do seu salário para que eu pudesse realizar o desejo de me dedicar a níveis mais profundos do universo acadêmico, no campo dos estudos teológicos. Um pouco depois, Marcos chegou mesmo a me indicar como candidato a uma bolsa de estudos em Princeton (EUA), algo de que nunca esqueci. Recentemente quis que eu me tornasse presidente da FTL-B (meu Deus, que loucura!), e vez por outra, ainda vive me instigando a publicar as coisas que escrevo. Por todas essas razões, minha formação deve em muito a Marcos, pelo que sou imensamente grato.
Não obstante, Marcos só conheceu Patrícia pessoalmente no ano de 2004, durante um dos encontros regionais da FTL, em Paripueira-AL. Esse encontro, por sinal, foi decisivo para um importante projeto que nos aguardava no futuro. Quem conhece Marcos sabe que ele é um exímio construtor de pontes entre as pessoas. E naquele encontro, Marcos apresentaria a mim e à Patrícia a Wellington Santos e Odja Barros, o que resultaria em uma parceria ministerial alguns anos depois, na Igreja Batista do Pinheiro, em Maceió. Não por acaso, ele acabaria sendo o orador em nosso culto de posse na Igreja Batista do Pinheiro. Em seu sermão baseado em Mc 5,1-11, nos convidava, a mim e a Patrícia, a sermos “pescadores de humanidade”, tanto naquela comunidade de fé, assim como em toda Maceió, em Alagoas, e onde mais nossa influência pudesse alcançar.
Não foram muitos os momentos em que eu e Patrícia pudemos desfrutar da presença de Marcos em nossa casa. Nossos encontros quase sempre aconteceram e acontecem nos ambientes acadêmicos e eclesiais aos quais estamos ligados. Mas a presença de Marcos sempre nos provocou fascínio, e, porque não dizer, um certo mutismo. Mais do que a complexidade de seu pensamento – e que se entenda complexidade no sentido de Morin, a quem Marcos estima –, é o impacto de sua figura despida das pompas hierárquicas de nosso imaginário pastoral que emudece. Mais do que o prestígio que lhe vem dos livros e artigos acadêmicos que escreveu, é o peso de sua biografia e de suas opções que emudecem. A sensação que temos é a de que Marcos se parece com Jesus de Nazaré, e que o Jesus Histórico deve ter sido assim como ele. E é exatamente isso que emudece. Afinal, em meio ao frenesi religioso de nossos dias, não são muitas as pessoas que nos provocam essa sensação.
A única coisa que eu e Patrícia ainda não lhe perdoamos são os roncos! No final de 2009, tive o privilégio de dividir o púlpito do Acampamento da Família da Igreja Batista do Pinheiro com Marcos. Ficamos hospedados no mesmo chalé: eu, Patrícia e Marcos, separados por uma divisória que nos dava alguma privacidade, mas nenhum isolamento acústico. Eram tão altos os seus roncos que tornavam impossível um segundo de sono. O próprio Marcos, por sua iniciativa, deixou-nos sós, e armou sua rede do lado de fora do chalé, a fim de que pudéssemos dormir tranqüilos.
Brincadeiras à parte, eu e Patrícia somos imensamente gratos à vida por conhecermos Marcos Monteiro. É uma alegria imensa para nós participar desta homenagem nos seus sessenta anos. Muito particularmente, a vida de Marcos para mim é uma fonte de inspiração no que diz respeito ao desafio de depositar fé nas pessoas em quem acreditamos. Falamos muito da fé em Deus, e de todo bem que ela pode fazer à vida das pessoas. Mas falamos pouco dessa capacidade que algumas pessoas têm de manifestar sua “fé no outro”. Sei que esta pode ser uma expressão meio esquisita para um fideísmo atento a palavras heréticas. Mas eu sou uma das muitas pessoas em quem Marcos tem tido fé. Porque é fácil ter fé em Deus, em quem (cremos!) não há imperfeições. Difícil mesmo é ter fé nas pessoas, com suas ambivalências e ambigüidades. Talvez tenha sido por isso que Marcos exortava a mim à Patrícia a fazermos de nossa caminhada pastoral um exercício de pescaria de humanidade: porque é justamente isso que ele mesmo vem fazendo a vida toda, sobretudo no nordeste do Brasil.
Parabéns Marcos, pelos sessenta anos de idade. Você é um presente de Deus e da vida, para mim e para Patrícia.
Paulo & Patrícia Nascimento
Maceió, 18 de agosto de 2011

sábado, 15 de outubro de 2011

POR QUE "ÓPIO COISA NENHUMA"


Sobre o potencial ambivalente da experiência religiosa

Quando eu resolvi produzir meu blogue, há três anos, uma grande amiga achou o título Ópio Coisa Nenhumahorrível. Num papo confidencial, ela me dizia que o nome era estranho, foneticamente deselegante, e espiritualmente esquisito. O blogue de um pastor, dizia ela, deveria ter um nome mais espiritual, mais suave, mais bíblico. Quando submeti meu livro, com o mesmo título, ao conselho editorial da EDUFAL, o(a) parecerista me recomendou que o mudasse. O título havia sido considerado confuso, editorialmente não recomendado e mercadologicamente fraco. O livro foi aprovado para a publicação com o título Religião e compromisso social (no prelo).
Para mim, era óbvio que o título Ópio Coisa Nenhuma seria automaticamente compreendido pelas pessoas. Eu pensava que todo mundo veria nele uma explícita referência ao aforismo de Marx “a religião é o ópio do povo...”. Todo mundo vai notar que Ópio Coisa Nenhuma é uma negação e uma afronta a esse aforismo, assim eu pensava. E a história que se seguiu foi a de inúmeros esforços para ter que justificar o porquê desse título.
Eu vislumbrei desde muito cedo minha vocação como teólogo. Lembro-me de enfrentar meu examinador do concílio com a estranha vontade de ser pastor-teólogo. E uma de minhas ênfases enquanto teólogo tem sido a de reforçar o potencial positivo da experiência religiosa. Já há muita gente interessada no potencial negativo da religião, dentro e fora das igrejas. Mas eu tinha razões muito fortes e pessoais para assumir outra postura.  
A primeira delas diz respeito à minha própria experiência com a religião. Eu também tive uma fase inicial de fundamentalismo e êxtase irracional. Já me entreguei aos devaneios carismáticos que vivem da negação do mundo e da demonização dos prazeres da vida. Mas essa fase não durou muito, embora tenha sido bastante necessária. No geral, foi com a experiência religiosa que tive a experiência de encantamento do mundo. Aprendi o valor das pessoas, descobri potencialidades latentes em mim mesmo, e venci uma série de dificuldades pessoais que por muito tempo eu havia experimentado como travas existenciais. Quando o efeito do ópio fundamentalista acabou, uma fé madura me encheu de paixão pela vida, e uma vontade de lutar por um mundo melhor tornou-se o mote principal de minha existência. Devo tudo isso à minha experiência religiosa.
Em segundo lugar, uma das razões para reforçar o potencial positivo da experiência religiosa havia sido a descoberta de algumas biografias magníficas. Eu havia descoberto um número significativo de pessoas para quem a experiência religiosa não poderia ser chamada de ópio. Nos livros, eu ia me dando conta de que a experiência religiosa estava na base da ação de grupos e de pessoas fantásticas, amplamente celebradas mundo afora.
A religião da comunidade primitiva de Atos 2,42-47 e 4,32-37, que partilhava todos os bens a fim de que ninguém tivesse necessidade, não podia ser chamada de ópio. O episcopado libertador de Basílio de Cesaréia (329-379) não podia ser chamado de ópio. As reivindicações sociais dos camponeses anabatistas do século XVI, liderados pelo espiritualismo de Thomas Müntzer (1490-1525), não podiam ser chamadas de ópio do povo. A abnegação dos irmãos moravianos, que se vendiam como escravos para evangelizar as colônias européias, não podia ser chamada de ópio do povo. Muito menos a sensibilidade de John Wesley (1703-1791) frente aos trabalhadores ingleses que começavam a ser vitimados pelos efeitos da Revolução Industrial, e o evangelho social de Walter Rauschenbusch (1861-1918) na virada para o século XX.
Eu ia descobrindo nos livros que a América Latina era um caldeirão fervilhando com um tipo de religião que não podia ser adjetivada de ópio do povo. Entre evangélicos e católicos, havia indivíduos e grupos que deveriam ser tratados diferentemente. Como chamar de ópio do povo a religião de Richard Shaull, de Paulo Wright, Rubem Alves e Paulo Evaristo Arns? Como chamar de ópio do povo a religião daqueles que escreveram o Manifesto da Ordem dos Pastores Batistas de 1963? Como chamar de ópio do povo à religião dos que organizaram a Conferência do Nordeste, em 1962, com o tema Cristo e o processo revolucionário brasileiro? Como chamar de ópio do povo às Comunidades Eclesiais de Base e à Teologia da Libertação de Gustavo Gutierrez, Jon Sobrino, José Comblin e Leonardo Boff? Nos livros, eu ia me dando conta de um tipo de experiência religiosa que não aparecia na crítica dos professores universitários.  
Em terceiro lugar, minha ênfase enquanto teólogo no potencial positivo da experiência religiosa se reafirmava na medida em que eu ia conhecendo gente de carne e osso, cuja experiência religiosa não poderia ser adjetivada como ópio. Com o tempo, fui me acercando de pastores e pastoras, missionários e missionárias, teólogos e teólogas diferentes. Eu não poderia chamar a religião de Marcos Monteiro de ópio do povo, com sua opção pelos pobres e sua renúncia às pompas da atividade pastoral. Eu não podia chamar a religião de Wellington Santos e Odja Barros de ópio do povo, por conta de sua coragem na denúncia de realidades de opressão fundiária, política e de gênero. Eu não poderia chamar a religião de Adriano Trajano de ópio do povo, com sua abnegação por humanizar um torrão de Alagoas que pouca gente que saber, e por seu enfrentamento de certas oligarquias históricas que por lá se perpetuam. Enfim, eu estava totalmente convencido de que a religião de Waldir Martins, Raimundo César, Paulo César, Jardson Gregório, Reginaldo Silva, Claudio Márcio, Joel Zeferino, e tantos outros e outras que fui conhecendo durante a caminhada, não poderia ser chamada de ópio do povo.  
Mas não se engane: pessoas religiosamente virtuosas não são apenas aquelas capazes de grandes realizações no campo social. Há um número enorme de pessoas anônimas, sem diplomas, sem vínculos com movimentos e iniciativas sociais, membros de comunidades religiosas, que fui conhecendo em minha trajetória pastoral, cuja vida é encantadora. Ou, como diria Foucault, gente que [a partir da religião] “foi fazendo de suas vidas uma obra de arte”. Pessoas simples, algumas delas sem estudos formais, mas profundamente inspiradoras.
Citar nomes é um ofício que comporta uma única certeza: a de que cometeremos a injustiça de esquecer alguém. Mas ainda assim eu mencionaria o irmão Altino (Acupe-BA), pregador do Evangelho completamente iletrado, do alto dos seus 85 anos (quando o conheci há nove anos), e com uma vitalidade de dar inveja em gente de 18 anos. Gente como Dró (Eduvirgens – Barra do Rocha-BA), cuja alegria contagia a quem estiver perto, qualquer que seja a situação. Gente como o irmão Zeca (Utinga-AL), cuja simplicidade apaixonante nocauteia qualquer presunção. Gente como Alda Galdino (Forene – Rio Largo-AL), cuja sensibilidade e humanidade constrangem a muitos humanistas. Gente como Pêu (Forene – Rio Largo-AL), cuja bondade, inteligência e sede espiritual são fascinantes.
Isso não minimiza as coisas vergonhosas que certos religiosos praticaram e praticam mundo afora. Mas tais coisas devem nos fazer pensar que nenhuma religião é intrinsecamente má. Bom ou mau é o uso que as pessoas fazem de sua experiência religiosa.
Com a religião as pessoas podem aprender a discriminar os outros, mas foi com ela que eu mesmo aprendi a respeitar as diferenças humanas. As pessoas podem ser motivadas a matar em nome de sua fé, mas foi pela fé que eu mesmo aprendi que a vida é o nosso bem maior. Com a religião as pessoas podem aprender que esse mundo não tem jeito e a cruzarem os braços esperando o céu, mas foi com a religião que eu me convenci de que o mundo pode ser transformado agora mesmo. As pessoas podem aprender com a religião que a cultura humana e as coisas alegres que nela há são entes contra os quais temos que resistir, mas foi com a religião que eu aprendi que “tudo na criação de Deus é bom”, e que a vida deve ser protegida e aproveitada da melhor maneira possível.
Ópio do povo? Pode até ser aqui e ali.
Para mim? Coisa nenhuma!  

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Nota de repúdio ao Promotor de Atalaia Sóstenes de Araújo Gaia


Nota de repúdio ao Promotor de Atalaia Sóstenes de Araújo Gaia

10 de Outubro de 2011.

A Constituição Federal, em seus Artigos 127 a 130, define o Ministério Público como uma “instituição permanente, essencial à função jurisdicional do Estado, incumbindo-lhe a defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis”. Em seu Artigo 129, inciso II, lhe é atribuído como função “zelar pelo efetivo respeito dos Poderes Públicos e dos serviços de relevância pública aos direitos assegurados nesta Constituição, promovendo as medidas necessárias a sua garantia”.
Na contramão da sua incumbência constitucional, em Audiência Pública, sobre Segurança, realizada pela Câmara de Vereadores de Atalaia no último dia 20 de setembro, com a presença de Dr. Alfredo de Mesquita (Juiz de Direito), Major J. Cláudio, vereadores e outras autoridades, o promotor público Sóstenes de Araujo Gaia usa a tribuna para afirmar que dentre as dificuldades existentes na comarca de Atalaia tem-se “o problema dos Sem Terras que é de onde parte toda bandidagem do município”.

A respeito de mais uma infeliz declaração do promotor, o Movimento Sem Terra afirma:

  1. Que reconhecemos o importante papel do Ministério Público no Brasil e em Alagoas. Fomos defensores de seu crescimento e sua autonomia e independência no processo de democratização do Brasil, mas não podemos nos calar diante de pessoas que envergonham e maculam a imagem do MP;

  1. Sentimos na carne as questões da violência em nossa sociedade. A violência social e a violência do Estado quando não garante direitos constitucionais aos cidadãos. E temos feito nossa parte para minimizar estas violências. Imaginem o que seria dos milhares de trabalhadores que foram descartados das terras das Usinas Brasileira e Ouricuri em Atalaia após falência, e com a apropriação indevida daquela terras por fazendeiros e autoridades; se não tivessem encontrado no MST a possibilidade de ter terra, trabalho e moradia digna;

  1. O MST em Atalaia é alvo de inúmeras tentativas de barrar a luta pela terra, prova disto é o histórico de violência contra a luta e os trabalhadores, tendo três mortes só neste município, através de consórcios de fazendeiros e grileiros de terra com a conivência de autoridades (Chico do Sindicato, José Elenilson e Jaelson Melquíades, todos assassinados, impunes até hoje). Buscando criminalizar o Movimento e construir uma imagem negativa da organização na sociedade.

  1. Lamentamos muito a conduta de um agente público que deveria servir de defesa intransigente da aplicação da Lei, mas que se soma ao conservadorismo que insiste em afrontar os Direitos Humanos. Posições expressas na fala do promotor citado, como “bandido bom é na pedra do IML”, não condizem com a competência demandada pela Instituição a qual hoje representa.

  1. A história de mais de 25 anos do MST comprova que nossa organização se construiu combatendo todas as formas de violência, procurando conquistar vida digna para as pessoas excluídas. Só em Atalaia são mais de 500 famílias (2000 cidadãos) assentadas/os a partir da luta do nosso Movimento, com direito a escola, creche, terra pra plantar, moradia digna, cultura.

Esperamos que os órgãos competentes tomem as medidas cabíveis contra esse membro que tem demonstrado posição em desconformidade com os princípios do Ministério Público.

Seguiremos organizando famílias, no Brasil, em Alagoas e em Atalaia. Lutando para conquistar terra para quem nela quer trabalhar. Convictos que não se desiste da luta quando matam um Sem Terra.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

MANIFESTO DA IBP SOBRE AS FAMÍLIAS ATINGIDAS PELAS ENCHENTES EM ALAGOAS

Maceió, 13 de outubro de 2011

MANIFESTO DA IGREJA BATISTA DO PINHEIRO CONTRA O DESCASO PÚBLICO EM RELAÇÃO ÀS FAMÍLIAS E COMUNIDADES ATINGIDAS PELAS ENCHENTES EM ALAGOAS

“Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”
(Mateus 5,6)

Este documento é resultado das discussões empreendidas durante o fórum bienal Igreja & Sociedade, ocorrido este ano em nossa comunidade religiosa, e que teve por tema “A atuação das igrejas nas situações de calamidade pública: Alagoas em questão”.
Nós, da Igreja Batista do Pinheiro, estivemos dialogando com diversas representações da sociedade civil alagoana, acerca da terrível situação em que se encontram as famílias atingidas pelas enchentes em nosso estado nos anos de 2010 e 2011. Nossos diálogos foram fomentados por representantes das comunidades atingidas, da comunidade acadêmica universitária, da arena político-partidária, do funcionalismo público estadual, e da comunidade religiosa, todos no intuito de encontrar respostas para o flagrante descaso em que se encontram as referidas famílias alagoanas.
Neste sentido, o presente documento tem o caráter de protesto em relação às entidades responsáveis pelas políticas de intervenção nessas comunidades, e dirige-se, sobretudo, ao Governo do Estado de Alagoas e ao Ministério Público Estadual, cobrando-lhes celeridade nas ações e fiscalização mais transparente quanto aos recursos destinados pelo Governo Federal para o programa de reconstrução das comunidades atingidas. Exigimos das entidades mencionadas maior transparência possível na utilização dos recursos públicos destinados à reconstrução das comunidades atingidas, haja vista a denúncia de residentes das próprias comunidades, relativas às arbitrariedades na utilização desses recursos e na destinação das novas residências já estarem sendo uma prática presente em alguns dos municípios atingidos.
Como comunidade religiosa, e como entidade da sociedade civil preocupada com o bem-estar dos nossos irmãos e irmãs alagoanos, consideramos vexatória a participação do Governo do Estado de Alagoas, e exigimos do mesmo respostas imediatas e ações políticas rápidas e eficazes que ajudem a minorar o sofrimento das milhares de famílias que há dezesseis meses vivem em condições subumanas em acampamentos comparáveis a “campos de refugiados”. O fórum Igreja & Sociedade 2011 apenas ratificou aquilo que em visitas pessoais os líderes da Igreja Batista do Pinheiro puderam verificar in loco, e aquilo que a Rede Globo de Televisão publicizou para todo o país, coincidentemente nos mesmos dias em que realizávamos o fórum: ausência de saneamento básico, alimentação precária, disseminação de doenças infectocontagiosas (sobretudo entre as crianças), crescimento da criminalidade e prostituição infantil.
Lamentamos a ineficácia do Governo do Estado de Alagoas nas políticas intervenção nessas comunidades, ao passo em que no estado de Pernambuco a maior parte das famílias já está realocada. No entanto, nosso lamento e indignação juntam-se a um clamor por justiça em relação às milhares de famílias que ainda vivem sob essas condições. Não gostaríamos que os dezesseis meses dessa tragédia política se estendessem para os vinte e dois anos da tragédia política da comunidade de Santa Fé, em União dos Palmares.    

Pr. Wellington Santos
Prª. Odja Barros
Pr. Paulo Nascimento 

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

RESENHA DE "CONVERSAS SOBRE A FÉ E A CIÊNCIA"


FALCÃO, Waldemar (org.). Conversas sobre a fé e a ciência: Frei Betto & Marcelo Gleiser com Waldemar Falcão. Rio de Janeiro: Agir, 2011
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Os leitores da última fase de Rubem Alves sabem que uma de suas crônicas mais difundidas é aquela sobre a diferença entre o jogo de tênis e o frescobol. Enquanto no tênis o objetivo é vencer o adversário com a bolada certa, no frescobol é diferente. Quanto mais se coopera com o adversário, mais prazeroso o jogo fica. Bola pra lá, bola pra cá, e quanto mais tempo a bola ficar no ar, sinal de que ambos jogaram bem. Diferentemente do tênis onde apenas um jogador vence, no frescobol, via de regra, ambos vencem.
O próprio Alves aplicou essa ilustração a um mundo de coisas: há casamentos, por exemplo, que se parecem com um jogo de tênis, onde cada cônjuge vive da expectativa de “tirar o outro da jogada” com a “palavra certa”. E há aqueles que se parecem com um jogo de frescobol, e se sustentam, entre outras coisas, pelo fio tênue da arte de dialogar sem pretensões de derrotar o outro.
Conversas sobre a fé e a ciência nada mais é do que uma deliciosa partida de frescobol entre três amigos: Waldemar Falcão (músico, astrólogo e escritor), Frei Betto (frade dominicano, teólogo e escritor) e Marcelo Gleiser (físico teórico e escritor). As 334 páginas desta publicação registram um clima de profundo respeito, abertura, cordialidade e dialogicidade entre três figuras pertencentes a tradições culturais bastante distintas. Em um tempo em que as intolerâncias, de todos os tipos, vão ficando cada vez mais na moda, Conversas sobre a fé e a ciência acaba se tornando um testemunho fantástico da necessidade da difícil tarefa de dialogar com os diferentes.
O livro tem quatro seções: TrajetóriasCiência e FéO Poder e Até o Fim (do Mundo, do Universo), abordadas por Frei Betto e Marcelo Gleiser, e mediadas por Waldemar Falcão. Sem perder de vista as distinções e peculiaridades concernentes à atividade da Ciência e da Religião, Betto e Gleiser contestam aqueles que se pautam pela incompatibilidade entre esses saberes. Para eles, se Ciência e Religião são distintas epistemológica, metodológica e estruturalmente falando, são convergentes na tarefa de se constituírem como saberes parceiros do ser humano em face das agruras da existência. Essa convergência talvez esse seja o mote principal dessas Conversas...
Não há dúvidas de que as intolerâncias, o chamado "narcisismo de grupo" (Erich Fromm), os fundamentalismos de toda sorte se recrudescem a cada dia. Quase sempre cedemos ao equívoco de pensar que essas coisas só acontecem no campo religioso. Não é verdade! O trabalho de Richard Dawkins, por exemplo, não seria uma forma de cruzada pós-moderna de um fundamentalismo de tipo científico-darwiniano? Quem vive o cotidiano de uma universidade sabe o quanto a atividade científica também está marcada por fundamentalismos de toda sorte. Essas Conversas sobre a fé a ciência, proporcionadas por Frei Betto e Marcelo Gleiser, devem ser encaradas com um sinal de esperança numa cultura que insiste em cultivar a intolerância e o absolutismo de certos pontos de vista sobre a vida.
Necessitamos todos e todas conversar mais. Pessoas diferentes, em mesas comuns, sem a arrogância e sem a gana por derrotar o Outro. O ditado popular reza que “é conversando que a gente se entende”. Às vezes a gente se desentende também. Mas conversar abertamente, mesmo correndo-se o risco de esbarrarmos algumas vezes na diferença, é uma necessidade cada vez mais premente. Não há construção de um convívio harmonioso no mundo que não passe pela construção e aceitação da alteridade, e que não passe pelo desafio e pela arte de conversar abertamente.


Eu costumo dizer que nossa dificuldade de aceitar o diferente e de dialogar com ele, não tem muito a ver com as nossas próprias certezas. Antes, tem a ver a com o medo e a possibilidade de que as verdades do Outro esfacelem as nossas verdades sobre ele e sobre nós mesmos. Esse livro me ajudou a confirmar essa desconfiança.