sexta-feira, 7 de outubro de 2011

RESENHA DE "CONVERSAS SOBRE A FÉ E A CIÊNCIA"


FALCÃO, Waldemar (org.). Conversas sobre a fé e a ciência: Frei Betto & Marcelo Gleiser com Waldemar Falcão. Rio de Janeiro: Agir, 2011
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Os leitores da última fase de Rubem Alves sabem que uma de suas crônicas mais difundidas é aquela sobre a diferença entre o jogo de tênis e o frescobol. Enquanto no tênis o objetivo é vencer o adversário com a bolada certa, no frescobol é diferente. Quanto mais se coopera com o adversário, mais prazeroso o jogo fica. Bola pra lá, bola pra cá, e quanto mais tempo a bola ficar no ar, sinal de que ambos jogaram bem. Diferentemente do tênis onde apenas um jogador vence, no frescobol, via de regra, ambos vencem.
O próprio Alves aplicou essa ilustração a um mundo de coisas: há casamentos, por exemplo, que se parecem com um jogo de tênis, onde cada cônjuge vive da expectativa de “tirar o outro da jogada” com a “palavra certa”. E há aqueles que se parecem com um jogo de frescobol, e se sustentam, entre outras coisas, pelo fio tênue da arte de dialogar sem pretensões de derrotar o outro.
Conversas sobre a fé e a ciência nada mais é do que uma deliciosa partida de frescobol entre três amigos: Waldemar Falcão (músico, astrólogo e escritor), Frei Betto (frade dominicano, teólogo e escritor) e Marcelo Gleiser (físico teórico e escritor). As 334 páginas desta publicação registram um clima de profundo respeito, abertura, cordialidade e dialogicidade entre três figuras pertencentes a tradições culturais bastante distintas. Em um tempo em que as intolerâncias, de todos os tipos, vão ficando cada vez mais na moda, Conversas sobre a fé e a ciência acaba se tornando um testemunho fantástico da necessidade da difícil tarefa de dialogar com os diferentes.
O livro tem quatro seções: TrajetóriasCiência e FéO Poder e Até o Fim (do Mundo, do Universo), abordadas por Frei Betto e Marcelo Gleiser, e mediadas por Waldemar Falcão. Sem perder de vista as distinções e peculiaridades concernentes à atividade da Ciência e da Religião, Betto e Gleiser contestam aqueles que se pautam pela incompatibilidade entre esses saberes. Para eles, se Ciência e Religião são distintas epistemológica, metodológica e estruturalmente falando, são convergentes na tarefa de se constituírem como saberes parceiros do ser humano em face das agruras da existência. Essa convergência talvez esse seja o mote principal dessas Conversas...
Não há dúvidas de que as intolerâncias, o chamado "narcisismo de grupo" (Erich Fromm), os fundamentalismos de toda sorte se recrudescem a cada dia. Quase sempre cedemos ao equívoco de pensar que essas coisas só acontecem no campo religioso. Não é verdade! O trabalho de Richard Dawkins, por exemplo, não seria uma forma de cruzada pós-moderna de um fundamentalismo de tipo científico-darwiniano? Quem vive o cotidiano de uma universidade sabe o quanto a atividade científica também está marcada por fundamentalismos de toda sorte. Essas Conversas sobre a fé a ciência, proporcionadas por Frei Betto e Marcelo Gleiser, devem ser encaradas com um sinal de esperança numa cultura que insiste em cultivar a intolerância e o absolutismo de certos pontos de vista sobre a vida.
Necessitamos todos e todas conversar mais. Pessoas diferentes, em mesas comuns, sem a arrogância e sem a gana por derrotar o Outro. O ditado popular reza que “é conversando que a gente se entende”. Às vezes a gente se desentende também. Mas conversar abertamente, mesmo correndo-se o risco de esbarrarmos algumas vezes na diferença, é uma necessidade cada vez mais premente. Não há construção de um convívio harmonioso no mundo que não passe pela construção e aceitação da alteridade, e que não passe pelo desafio e pela arte de conversar abertamente.


Eu costumo dizer que nossa dificuldade de aceitar o diferente e de dialogar com ele, não tem muito a ver com as nossas próprias certezas. Antes, tem a ver a com o medo e a possibilidade de que as verdades do Outro esfacelem as nossas verdades sobre ele e sobre nós mesmos. Esse livro me ajudou a confirmar essa desconfiança.

3 comentários:

Cláudio Márcio disse...

Fala meu Pastor...Muito boa sua resenha.
É tempo de conversar mesmo...
abraço sócio-teológico
Cláudio Márcio

Eustáquio Pereira disse...

Bom dia. Muito boa sua resenha - e a vinculação à "pedagogia do frescobol". Quando comprei o livro imaginaria que o Gleiser ficaria mais isolado do grupo tendo em vista que entre o Falcão e o Betto já havia aparentemente uma sincronia, mas me enganei. Creio que entre cada possibilidade de pares formados pelo trio haveria um ponto de concórdia muito forte, e no final das contas saí com a impressão que entre Betto e Gleiser há mais pontos em comum do que de discordância. Grande abraço.

Juanita disse...

Eu também poderia dizer que fiquei decepcionada com esse livro. Com toda a propaganda que vi antes de comprá-lo, ficou a impressão de que ele prometeu muito e entregou pouco. Por vezes, pareceu-me também um pouco superficial. O que é realmente uma pena, considerando o contraponto entre as cabeças de dois expoentes de suas respectivas áreas.

No entanto, há momentos bem bonitos também. Arrisco dizer que o problema maior ficou a cargo do mediador do pretendido diálogo entre as duas celebridades: Gleiser e Frei Betto. Ele teve uma postura bastante semelhante aos jôsoares da vida. Enfatizo que nenhum deles precisava de mais um livro. Ainda mais de um "livro que não vale o quanto pesa.”.

Da metade pra frente cheguei a cogitar a possibilidade de interromper a leitura. Fui até o fim. A valentia valeu a pena porque no final, principalmente na última fala do frei Betto, há um recado muito interessante:

"Assim como Agostinho se inspirou em Platão, e Tomás de Aquino em Aristóteles, a nova teologia deve levar a sério os avanços recentes da filosofia e da ciência, nos passos do que fizeram Kepler, Kelvin, Ampère e Maxwell. Só nessa direção, fé e ciência deixarão de ser encaradas como antagônicas recorrentes, adversárias ou inimigas, para serem entendidas como duas dimensões de nosso processo de conhecimento, o racional e o suprarracional, o empírico e o espiritual, que se articulam em nossa inteligência e nos propiciam a possibilidade de sermos mais humanos, divinamente humanos."

Joana M. Eleutério
Brasília-DF