domingo, 3 de janeiro de 2010

UMA VISÃO DO FUNDO DO MAR




UMA VISÃO DO FUNDO DO MAR

Essa noite eu caí no fundo mar

Lá eu só vi surpresas, vi o que não se quer ver

Vi as coisas pelo avesso, espalhadas caoticamente

Daquele jeito que nos irrita, porque fingimos sempre o equilíbrio

Lá as coisas estão nuas, e de olhos fechados tudo se torna visível

No fundo do mar tudo é autêntico, até a hipocrisia

No fundo do mar tudo é verdadeiro, até a mentira

No fundo do mar tudo é manso, até a cólera

No fundo do mar tudo é decente, até a devassidão

No fundo do mar tudo é escuro, até o sol do meio-dia

No fundo do mar tudo é sério, até a filosofia


Lá eu me descobri diferente, eu era outra pessoa

Eu era uma amálgama inédita, sem temor e sem pudor

Lá eu era vento e pedra, padre e pastor

Porque no fundo do mar tudo é novo, até o mundo

E embora eu não quisesse ver, no fundo do mar eu me sentia bem

Lá eu era assim, inteligente, paciente, cafajeste, triste

Pois no fundo do mar tudo é solidão, até a turba

No fundo do mar tudo é santo, até a igreja

No fundo do mar tudo é força, até o homem

No fundo do mar tudo é saúde, até a doença

No fundo do mar tudo é casto, até o sexo

No fundo do mar tudo é alegria, até a vida

No fundo do mar tudo é doce, até o terror


Lá todas as coisas valem a pena, porque não há almas grandes

No fundo do mar a razão é uma louca alucinada

A gritar freneticamente pelas ruas sem que ninguém a ouça

No fundo do mar o sentido é um ermitão a que ninguém quer dar ouvidos

E o bom senso é um serial killer a quem todos cospem na cara


Lá eu era uma dezena de pessoas, uno como ninguém

Porque no fundo do mar tudo é inteligível, até a Santíssima Trindade

No fundo mar tudo é alegre, até um tango argentino

No fundo do mar tudo é soberbo, até o sorriso de uma criança

No fundo do mar tudo é perfeito, até o matrimônio

No fundo do mar tudo é honesto, até a política

No fundo do mar tudo é puro, até o beijo de uma prostituta

No fundo do mar tudo é leve, até a miséria nossa de cada dia


No fundo do mar todas as coisas têm asas, por isso tudo flui

Lá tudo é confortável, até as garras de um gavião

Lá os loucos dão as ordens e as encarceradas fazem as leis

Ninguém se espanta da desordem, pois que ela entra pelas narinas

Os leões vigiam os jardins e as cobras dão os primeiros acordes das manhãs

Nas catedrais os bancos ficam presos ao teto e os fiéis dormem nas celebrações

Nos funerais os bem-te-vis cuidam das velas e as carpideiras arrumam as telhas das casas

No fundo do mar tudo é ideal, até as escolas

No fundo do mar tudo é popular, até os livros de Nietzsche

No fundo do mar tudo é saboroso, até o veneno das serpentes

No fundo do mar tudo é improvisado, até a liturgia da missa

No fundo do mar tudo é festa, até a morte de um micróbio

No fundo do mar todos vão à escola, até as vacas


Foi lá que eu me encontrei, e, engraçado, acabei por me perder

Porque no fundo do mar a alegria não tem fim

E lá a tristeza é um prato servido em todos os lugares nobres

No fundo do mar a burguesia dança no meio da rua mostrando as nádegas

Mas as pessoas-de-bem pouco se importam, já que suas casas não possuem janelas

No fundo do mar tudo é sono, mas vive bem que vive em vigília

Foi quando me lançaram uma bóia, na qual estava escrito: “Vida real”

E tudo se fez velho, como num parto bem sucedido

E tudo se fez novo, como num canto não ouvido...


Paulo Nascimento


3 comentários:

Maria da Conceição Souza Silva disse...

Não conhecia ainda essa sua vertente poética. Até então só havia lido (e apreciado) seus artigos que mesclam teologia,sociologia e filosofia de uma maneira muito deliciosa de se ler. Fiquei encantada, também, com a sua poesia. Fiquei com uma vontade enorme de visitar o fundo do mar. Só que eu não saberia descrever com tanta beleza a minha experiência por lá.

Paulo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Nascimento disse...

Oi Maria! Obrigado pela graciocidade. Esses arroubos poéticos me aparecem muito raramente. Mas quando aparecem, trato de engaiolá-los logo numa rede de palavras. Obrigado por acompanhar nossas meditações. Um grande abraço!