segunda-feira, 26 de abril de 2010

SOB A LUZ DA ESPERANÇA


Apologia e testemunho acerca de uma comunidade Batista

Para a Igreja Batista Esperança, em Salvador-BA

Em minha pequena caminhada cristã e pastoral, há duas coisas para as quais nunca me senti vocacionado: a apologia, como defesa do protestantismo frente a confissões de fé diferentes, e o espírito “testemunheiro”, como meio propagandístico e marqueteiro de divulgar a fé. Mas também eu não desejaria jogar fora a bacia de água suja junto com o bebê. Apologia e martyria (testemunho) são, de fato, constituintes da vida cristã. No período Patrístico, especialmente entre os séculos III, IV e V de nossa Era, apologia e testemunho foram os pilares de sustentação da fé cristã, pelo menos para o Cristianismo Ocidental. Justamente esse que nos chegou nos moldes católico e protestante.

Todavia, para nossos atuais movimentos evangelicais, apologia e testemunho ganharam outras significações. E são justamente contra estas significações que sempre me pus. Apologia tornou-se aí sinônimo de polêmica, e de cruzada frente ao catolicismo e às religiões não-cristãs. Testemunho, por sua vez, tornou-se uma das formas (sempre muito suspeitas) com que o aparelho institucional lança mão como meio propagandístico e marqueteiro. Apologia, que deveria consistir no esforço de demonstrar a plausibilidade da fé cristã frente aos desafios do mundo contemporâneo, tornou-se expressão da eterna celeuma interreligiosa própria dos fundamentalismos. Testemunho, que deveria consistir na “eloqüência silenciosa” da nova vida experimentada por indivíduos e comunidades em função de sua fé em Jesus Cristo, tornou-se “obsolescência barulhenta” como meio de lotar templos e multiplicar fiéis.

[Não esqueça:

Apologia = Esforço de demonstrar a plausibilidade da fé cristã frente aos desafios do mundo contemporâneo.

Testemunho = “Eloqüência silenciosa” da nova vida experimentada por indivíduos e comunidades em função de sua fé em Jesus Cristo.]

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No último fim de semana tive o privilégio de participar como preletor das comemorações do sétimo aniversário de organização da Igreja Batista Esperança (IBE), no bairro de Pituaçu em Salvador. Considero a IBE como uma dessas comunidades cristãs dignas de nosso esforço apologético e testemunhal. E até me arriscaria numa comparação ousada.

Paulo de Tarso, escrevendo à comunidade cristã de Tessalônica, expressaria sentimentos e teceria elogios relacionados à postura daquela comunidade frente ao contexto no qual estava inserida. O contexto dizia respeito ao início da onda de perseguições deflagrada contra os primeiros cristãos nas províncias do Império Romano. Nesse difícil contexto de perseguição imperial, Paulo elogiaria os crentes tessalonicenses pela “operosidade de sua fé, pela abnegação do seu amor, e pela firmeza da sua esperança em Jesus Cristo” (1Ts 1,3). Naquele contexto de violência imperial, Paulo louvaria a Deus pela comunidade de Tessalônica, dizendo que seus membros haviam “se tornado imitadores dele e de Jesus Cristo, de sorte que aquela comunidade se tornara modelo para todos os crentes na Macedônia e na Acaia” (1Ts 1,6-7). Em outros termos, Paulo parece entusiasmado com as respostas da comunidade frente aos desafios colocados pela situação contextual. Naquele caso: fé operante, amor abnegado, firmeza na esperança, e testemunho da pertinência comunitária para toda região.

A IBE, como a maioria de nossas comunidades cristãs, vive hoje à luz de outras situações contextuais. Tendo sido criada em 2003 sob influência do pastor Raimundo César Barreto (hoje à frente da divisão de Liberdade e Justiça da Aliança Batista Mundial), a IBE fez a opção preferencial por localizar-se numa comunidade periférica de Salvador, situada no bairro de Pituaçu. Hoje, sob a influência do pastor Waldir Martins, a IBE segue em sua vocação de comunidade cristã profundamente preocupada em responder adequadamente às demandas sociais, culturais e espirituais do seu entorno.

Como é peculiar nas periferias de nossas grandes cidades, a carência de educação, saúde, lazer, cultura e espiritualidade também formam o contexto do bairro de Pituaçu. Nesse sentido, o calendário e o organograma da IBE se estruturam em função dessas demandas, concretizando a tese missiológica do pastor Luis Longuini Neto, para quem “a missão é da igreja, mas a agenda é do mundo”. As iniciativas sócio-culturais da IBE vão desde um belíssimo projeto de uma biblioteca comunitária para atender às crianças do bairro, passando pelo oferecimento de cursos de capacitação em informática, e culminando no fomento à cultura por meio do oferecimento de cursos de dança. Além disso, a IBE mantém convênio com a Secretaria Municipal de Saúde, oferecendo seu espaço físico como posto de atendimento à comunidade nas políticas públicas relacionadas à saúde.

No mais, a IBE está filiada à Aliança de Batistas do Brasil (junto com a Igreja Batista do Pinheiro em Maceió, a Igreja Batista de Bultrins em Olinda, e a Igreja Batista Nazaré em Salvador), o que se constitui como uma das formas de declaração de seu perfil ecumênico, progressista, inclusivo, libertário e evangelicamente preocupada com o ser humano em sua integralidade.

Dessa forma, com o mesmo espírito com que Paulo de Tarso elogiou a comunidade cristã de Tessalônica em função de suas respostas às demandas daquele contexto, eu penso ser possível fazer o mesmo em relação à IBE. A partir da maneira com que a IBE tem se relacionado frente às demandas do bairro de Pituaçu, é perfeitamente possível louvar a Deus pela “operosidade de sua fé, pela abnegação de seu amor, e pela firmeza de sua esperança”. É também perfeitamente possível dizer que a IBE, nesse sentido, tornou-se “modelo para todas as igrejas da região”.

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É verdade, os Evangelhos nos ensinam a não falar muito acerca das coisas que fazemos pelos outros. “Que a mão direita não saiba o que a esquerda fez” (Mt 6,3), ensinava Jesus de Nazaré. Quem vive de propagandear suas práticas caritativas quase sempre o faz sob a necessidade de autopromoção e de beneficio próprio. Mas também é verdade e conselho evangélico o fato de que “não podemos deixar de falar daquilo que temos visto e ouvido” (At 4,20). Enquanto a autopromoção é expressão do desejo de autopremiação, “falar do que temos visto e ouvido” outras pessoas e comunidades fazerem, pode ser a maneira de atualizar a função apologética e testemunhal de nossas comunidades cristãs. Isso por algumas razões simples.

Primeiro, porque a reboque do que aparece na televisão, as pessoas são cada vez mais conduzidas à homogeneizar a experiência das comunidades cristãs e do ministério pastoral. O que quero dizer é que a “representação social” que a maior parte das pessoas não-religiosas tem das igrejas e dos pastores, é aquela divulgada na televisão. Todo mundo sabe que a televisão, apesar de não ser o único, é um dos meios mais eficazes na produção de nossas representações sociais, isto é, na produção do pensamento do senso comum. As representações sociais são as formas com as quais damos significação ao desconhecido, ao novo, e o enquadramos em quadros de referência que nos tranqüilizam e dão sentido à nossa forma de encarar a realidade. Ninguém nega que as representações sociais mais comuns que se têm dos “evangélicos” no Brasil tenham estreita dependência daquilo que aparece na televisão. Dessa forma, nosso exercício apologético deve consistir em relativizar essas representações sociais, apontando para a pluralidade nas maneiras do ser “evangélico”.

Segundo, mais do que a simples relativização das representações sociais majoritárias acerca dos grupos chamados de “evangélicos”, nossa apologética deve consistir em demonstrar, por meio da força testemunhal e prática de comunidades como a IBE, que a espiritualidade cristã pode ser perfeitamente pertinente em face das demandas de nosso mundo contemporâneo. Portanto, nosso dever apologético já não gira mais em torno do binômio “verdade-falsidade”, mas em torno do binômio “pertinência-impertinência”. Isso porque em um mundo que se desintegra em função de projetos humanos que não humanizam a todos e todas (sendo o hegemônico o projeto capitalista-neoliberal), o mais urgente não é saber quem está mais perto de uma ortodoxia. O mais urgente é saber quem está mais perto de uma ortopraxia.

Nesse sentido, acredito que “Esperança” tenha sido mesmo o melhor nome escolhido para essa comunidade Batista plantada há sete anos em Pituaçu.

2 comentários:

W. disse...

Paulo, sua presença foi marcante e sua contribuição fundamental para a caminhada que estamos empreendendo. Obrigado pelas palavras animadoras à nossa comunidade.
Grande abraço,

Waldir

Nilo disse...

Rapaz... Olha que felicidade ver um pastor batista trabalhar de maneira tão poetica o conceito de representações sociais com a realidade de uma igreja de periferia. Precisamos conversar.abs