quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Paschoal Piragine Jr. e Bento XVI


Eu considero a eleição do pastor Paschoal Piragine Jr. para a presidência da Convenção Batista Brasileira (CBB) algo parecido com a eleição do então cardeal Joseph Ratzinger para o papado da Igreja Católica em 2005. Em minha opinião, os dois casos tornam-se emblemáticos por caracterizarem respostas explícitas de duas importantes instituições religiosas diante dos desafios postos pela sociedade. Acho que ambos os casos representam um explícito recado das alas conservadoras das respectivas igrejas, dizendo à sociedade que estão mais vivas e fortes do que nunca. Slavoj Zizek havia dito numa conferência no Brasil que nosso tempo tem sido marcado pelo sucesso de ideologias progressistas e libertacionistas em todos os campos, mas não sem o fortalecimento recíproco dos fundamentalismos e do conservadorismo em todo canto. Eu concordo. 
Joseph Ratzinger, hoje Bento XVI, é uma figura que dispensa apresentações. Mas há recordações importantes que poderiam ser feitas acerca de sua trajetória, pouco conhecidas do público mais amplo. Atenho-me a duas apenas.
A primeira vem de uma entrevista concedida recentemente por Hans Küng. Küng, à época com 32 anos de idade, foi uma das figuras mais importantes do Concílio Vaticano II (1962-1965). Ele nos lembrava de como Joseph Ratzinger, também muito jovem à época, destacava-se como um teólogo iminente naquele período de novas expectativas na vida da Igreja Católica. Conforme Küng, ambos haviam sido convidados pelo Papa João XXIII para que declinassem de uma postura acintosamente crítica, e para que adotassem uma postura mais “adaptada” à ideologia da Igreja Católica. Küng preferiu o caminho da crítica (vide sua obra). Ratzinger preferiu os louros do conforto institucional. Em 1980 Hans Küng teria seus direitos à cátedra teológica caçados por Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antiga Santa Inquisição).
Outro episódio importante da biografia de Bento XVI e pouco conhecido veio a público por meio de Leonardo Boff, numa palestra concedida ao programa Sempre um Papo da TV Cultura. Boff descrevia o tempo de sua formação na Alemanha, e dizia ter sido subsidiado por Ratzinger para a publicação de sua tese de doutorado. Ratzinger havia arcado com todos os custos da publicação da tese de Leonardo Boff. A tese tinha mais de 600 páginas, e versava sobre o tema do horizonte sacramental da Igreja. Em 1984, no entanto, Boff seria submetido por Ratzinger a um ano de “silêncio obsequioso”, em função de suas teses no famoso livro Igreja: carisma e poder. Depois disso Boff declinaria da condição sacerdotal para dar seguimento à sua militância no campo da teologia, da educação, da ecologia e dos movimentos sociais. Também para casar-se!
A eleição de Joseph Ratzinger há quase seis anos, em substituição a João Paulo II, foi um explícito recado da Igreja Católica dizendo que os “ventos modernizantes” não teriam vida fácil em seu meio. Ela se daria num momento de muita convulsão interna, provocadas, sobretudo, (1) pelos anseios quanto à ordenação de mulheres ao sacerdócio católico, (2) pela exigência de uma maior flexibilidade frente às questões da bioética e do uso de anticoncepcionais, (3) pelo relacionamento menos ríspido junto às “teologias da libertação”, e (4) pela ansiedade de revisão da obrigatoriedade do voto de castidade. A figura de Bento XVI representaria um NÃO! frontal a todas estas expectativas da sociedade, assim como das alas mais progressistas da própria Igreja Católica. Os péssimos resultados da adoção do projeto reacionário representado por Bento XVI seguem dia após dia: uma Igreja que não consegue dialogar com a sociedade, que se vê cada vez mais desacreditada enquanto instituição social, e que tem que tropeçar nos próprios pés a cada escândalo interno que surge.
Paschoal Piragine Jr. demanda apresentação e recordação. É pastor da Primeira Igreja Batista em Curitiba desde 1988, e tem um doutorado em Teologia. Também é escritor, tendo atuado desde a juventude em diversos órgãos ligados à CBB. Em anos recentes presidiu a Ordem de Pastores Batistas do Brasil (OPBB). Ele já havia, inclusive, sido eleito anteriormente como presidente da CBB. É alguém, portanto, com uma inserção histórica muito profunda na vida denominacional dos batistas brasileiros. Há alguns anos, eu cheguei a ouvir o pastor Piragine Jr. em Recife, na Igreja Batista Emanuel, durante um congresso nacional da OPBB. Mas, sem dúvida, a recordação mais marcante de alguma coisa que o pastor Piragine Jr. tenha dito vem do YouTube e das últimas eleições presidenciais em 2010.
O pastor Paschoal Piragine Jr., agora eleito mais uma vez presidente da CBB, é o mesmo que incendiou o universo evangélico brasileiro com uma inesquecível – porém não inédita! – campanha antipetista, feita à base de pressupostos religiosos. É o mesmo que, depois de trinta anos de um inexplicável silêncio, alertou o povo evangélico do Brasil, por meio de um vídeo postado no YouTube, para a possibilidade da implantação de um “império a iniqüidade”, pela via do programa de governo do PT. É o mesmo que nunca conseguiu ver a iniqüidade institucionalizada no Regime Militar (1964-1985) que oprimiu o povo brasileiro, inclusive quando o mesmo já era pastor batista. É o mesmo para quem as políticas públicas ligadas aos Direitos Humanos representam uma afronta aos princípios cristãos, por ferirem a convicção das igrejas, e atraírem a "ira de Deus" sobre a nação. É o mesmo que, em meio a um universo de temas e preocupações prementes da sociedade brasileira, ajudou a reduzir o debate político das campanhas a dois temas apenas: o aborto e a união civil de pessoas do mesmo sexo.

Portanto, que querem dizer os batistas brasileiros com esta eleição? Que sinalizações ela dá àqueles que desejam repensar os horizontes missiológicos e o pano-de-fundo ideológico que nos faz ser quem somos? O que esta eleição sinaliza para aqueles que se sentem no direito de repensar os destinos desta denominação, e desejam oxigenar suas superestruturas? Que sentimentos esta eleição provoca naquelas pessoas de boa vontade de nossa sociedade para quem os fundamentalismos representam travas na construção de projetos humanos mais democráticos, inclusivos, e, por que não, evangélicos? Que imagens sobre os grupos religiosos eleições desse tipo ajudam a reforçar? A exemplo do projeto reacionário representado por Bento XVI, com a eleição do pastor Paschoal Piragine Jr. os batistas conseguirão responder pertinentemente aos desafios da sociedade brasileira, ou se afundarão em reacionarismos e fundamentalismos que mais afugentam do que ajudam a produzir bons frutos?

12 comentários:

Pr. Adriano Trajano disse...

Estou muito orgulhoso pela escolha do servo do Senhor, Pr. Paschoal Pirajine Jr. A CBB está de parabéns pelo avanço e progresso denominacional. Por isso me orgulho de ser Batista tradicional da CBB. Parabéns ao povo batista brasileiro pela conquista. Viva nossa denominação histórica e fiel ao Evangelho. Simplesmente estou feliz. Me entendam, por favor. Parabéns pelo texto Pr. Paulo Nascimento.

Anônimo disse...

Caro amigo Pr.Adriano, por mais que vc implore e suplique de joelhos eu não te entendo. Só em vc pedir para que te entendamos,já é uma confissão e um pedido de perdão por essa sua manifestação de orgulho inexplicável. As suas palavras me assustam: avanço,progresso,conquista.

Anônimo disse...

O comentário do anonimo é meu, não sei postar com meu nome aqui no blog. Adriano vc quer revelar que os seus pressupostos teológicos mudaram ou está tirando uma onda com a eleição do PIRAGINE ?? Pode ser bom para vc, o Paulo é quase um psicólogo e vai tentar entender. KKK abração.

ASCANIO JUNIO

Pr.Adriano Trajano disse...

Esse Ascãnio me deixa numa sinuca de bico (Muitos risos). Rapaz, entenda meus sentimentos de solidariedade ao Pirajine. Amo a CBB. Um forte abraço meu irmão. Ainda em risosssssssss!!!!

Rhanes Virgilio disse...

Sou batista e amo a minha denominação, contudo a eleição de Paschoal não é sinônimo de amor a denominação. É sim, de conservadorismo e ignorância política.

Anônimo disse...

Paschoal Pirangine não é doutor em teologia. O título dele é que nem o do sport recife de 1987. Tudo de mentirinha...

Nilson do Amamral Fanini

Marcelo da Silva disse...

Acho uma bobagem enorme esse argumento de que após tantos anos de silêncio o pastor Piragine (ou outro qualquer resolveu falar). Digamos que não tenha falado por falta de coragem, ou por falta de percepção, ou por falta de informação, ou por ter mudado de opinião, ou pelo que for. Ele resolver se pronunciar no momento que o fez, não faz das suas afirmações falsas ou verdadeiras. A análise precisa ser feitas com base nos fatos, e contra isso não há argumento. Que o PT teve de mudar sua política de campanha está claro, que o PT mentiu e mente sobre o que realmente pensa (explicito no PNDH3 antes das "adaptações") é evidente. Em resumo, a afirmação de que a iniquidade seria mais institucionalizada ainda está correta. Tenho certeza que a escolha do pastor Piragine foi acertada. É a certeza que, a exemplo de um monte de instituições apartidária no país, nossa convenção não está contaminada com esse virus do PT que assola o Brasil e os blogs de opinião.

Anônimo disse...

Parabéns Pr. Piragine!
A Igreja está aí para apontar visão e vontade de Deus sobre assuntos relevantes da sociedade. Não foram apenas vídeos do Pr. Piragine que tentaram mostrar ao povo as convições e programas dos partidos, mas também, Padres e Juristas ilustres. Ou será que nós que defendemos a vida de pessoas inocentes, não temos o direito de nos manifestar. E quando o fazemos recebemos o rótulo de antiprogressitas, antidemocráticos etc.
Tem pastores que estão se adaptando aos padrões do mundo...
é uma lástima, para não dizer uma tragédia.

irmão Valmir disse...

Graça e Paz amados!
A eleição deste senhor, só vem demonstrar o quanto as denominações evangélicas estão se afastando do Sã Doutrina. Estão se desviando do "Deus Vivo".
Quando, à época da eleição, eu assisti pela primeira vez aquele vídeo, fiquei, no início, perplexo. Depois, assisti mais algumas vezes e pude perceber, o quanto aquele homem mentiu...em nome de Deus, da tribuna cristã, lugar da Verdade. Era hora da CBB chamá-lo ao arrependimento, ajudá-lo, orar com ele e exortá-lo. Mas o que fizeram? Elegeram-no, aprovaram-no, subscreveram-no. Foi assim, caídos e governando um povo igualmente caídos, que os reis de Israel levaram o povo para longe de Iahweh e depois ao cativeiro. Foi assim que os bispos/papas caídos, levaram os cristãos ao casamento com o Estado...e se desviaram todos. Tinham títulos, mas não tinham o Espírito de Deus.
Se desejarem, eu posso comentar o vídeo inteiro deste senhor, revelando quantas mentiras, distorções e malícias há naquela peça montada para confundir. Por hora, vou comentar até 01:05 do vídeo:
"Iniquidade é qdo a gente tá tão acostumado ao pecado que não temos mais vergonha de cometè-lo, passa a ser natural em nossa vida
quando a iniquidade chega o coração do homem já está tão endurecido que ele não se envergonha mais do pecado, e ele já não reconhece que determinada ação é pecado..."

irmão Valmir disse...

...continuando.
COMENTÁRIOS: Engraçado! Eu não vejo o irmão Paulo, o irmão Pedro, o irmão João, não vejo nos escritos deles e dos outros autores neotestamentários, alguma preocupação com o pecado...lá de fora! A preocupação deles, era com os "de dentro", os que tomaram a decisão de seguir o homem da Cruz. A preocupação deles era para a purificação da Igreja e não dos povos desta terra. Pois é...porque nossos pastores, ao invés de se preocuparem com a "iniquidade" da "nação" não se preocupam com esta mesma iniquidade dentro da Igreja? " Eu procurei no YouTube e não achei este senhor, que lá tem muitos vídeos, pregando contra a promiscuidade/porneia dos cristãos, quando se despem, ficam semi-nús e banham-se em nossas praias, exibindo seus corpos, expondo sua sensualidade, dourando-se, em meio aos igualmente promíscuos cidadãos que não temem a Deus. A praia (que já foi lugar de pesca e de um bom banho) virou um lugar de "iniguidade"...e porque este senhor nunca falou isto ao seu ouvintes? Não estariam ele e seus ouvintes com o coração tão acostumados com a iniquidade (como ele mesmo diz) que já não sentem mais pecado nisto? Será que estão tão cegos e longe de Deus que só veem o pecado no programa de um partido? Será que ao menos ele tem avisado suas ovelhas para se absterem de frequentar tal lugar, que é tão promíscuo quanto uma boate? Ou quem sabe, este senhor também, no verão, fica semi-nú e vai "conforme o curso deste mundo" banhar-se na mesma banheira dos iniquos?
Continua...

irmão Valmir disse...

...continuando.
Eu também não encontrei nada deste senhor avisando seus ouvintes que, segundo as Escrituras, temos que nos santificar (Hb 12.14, Rm. 6.22), e que, por isto, em observando que "nem tudo convém" e "qualquer que profere o nome de Cristo, aparte-se da iniquidade" (2Tm.2.19), e por isto, era dever deste senhor convidar seus ouvintes a apartarem-se das novelas, dos filmes, dos programas de auditório, dos BBBs, que são, pratos cheios de iniquidades, tão quanto, aqueles que ele enganosamente tentou jogar na conta de apenas um partido político. Aliás, se a iniquidade para este senhor é aborto, homossexualismo, pornografia, violência doméstica, será que isto tudo não está dentro dos lares dos cristãos através da TV, da internet, das revistas? Porque ele, em seus vídeos, não avisa o povo de Deus, para não se contaminarem com tais coisas, não as levando para seus quartos, através da TV, prostitutas, homossexuais, adúlteros, satanistas, promíscuos, espancadores de esposas, enfim, servos de satanás, os colocam para falar/doutrinar, dentro de suas casas. Se ao menos nem avisa a Igreja de coisas tão óbvias...porque está preocupado com o governo secular, que governa pessoas desta terra?
Eu não encontrei nenhum vídeo deste senhor, exortando a Igreja quanto a certos cantores, pastores e pregadores, mais parecidos com pop-stars do que mensageiros do Senhor Jesus, que exploram o povo de Deus, fazendo negócios deles, usando-os com pretexto de adoração, mas que no fundo só querem mesmo é vender suas mercadorias e se promoverem para a política, para o poder terreno, para as coisas destes mundo. Eu também não vi este senhor exortando o povo com relação aos preços abusivos dos materiais evangélicos, outra exploração em nome do Sagrado. Irmão Piragine...acorde! Olhe primeiro para dentro de sí, e depois ajude suas ovelhas, e por último, se der tempo...ajude o povo brasileiro, conduzindo-os à Cristo!
...continua.

irmão Valmir disse...

Finalizando...

"...é tempo que Deus tem que julgar a sua terra, julgar o seu povo, julgar uma nação"
COMENTÁRIOS: Deus julgar a sua terra? Que terra? Israel? Julgar seu povo? Oras...achei que o evangelho diz que o juízo será por ocasião do estabelecimento dos tribunais de Deus, na consumação dos séculos. Julgar uma nação? Que nação? Deus agora tem nação? Será que este senhor não está confundindo a Nova com a Velha aliança, quando sabemos que na Velha, Iahweh tinha apenas uma nação e na Nova, tem um povo em todas as nações? Mas...se por nação, entendemos que é a Igreja (nação santa), então Deus vem julgar a Igreja e não a nação brasileira, certo?
Há muito mais que eu gostaria de revelar os erros deste senhor naquele vídeo, mas por ora, vou ficando aqui.
Que o Senhor Jesus ajude o irmão Piragine, renove sua Igreja e abençoe a nós todos, fazendo seu Espírito mover-se em nosso ser, de maneiras, que, apartando-se cada vez mais das coisas deste mundo, possamos verdadeiramente serví-lo, agradá-lo e amá-lo. Deixemos os mortos sepultarem os mortos.