terça-feira, 27 de março de 2012

O BISPO, O APÓSTOLO E O PROFETA


No último domingo, uma amiga me presenteou com uma cópia do filme O Santo Rebelde. Trata-se de um documentário sobre a trajetória de Dom Helder Câmara. Eu sempre fui fascinado pela figura de Dom Helder. O filme me ajudou a perceber um pouco mais do impacto que ele teve na América Latina e em todo mundo.
Dom Helder Câmara foi arcebispo da diocese de Recife e Olinda. Rejeitando o conforto a que têm direito os bispos católicos, morava em uma comunidade pobre, numa residência muito simples. Dedicou seu episcopado integralmente aos pobres, e durante a Ditadura Militar denunciou em universidades do exterior os crimes de tortura que eram praticados por aqui. Candidato ao Nobel da Paz em 1971, 1972 e 1973, foi impedido de receber o prêmio pelo Governo Militar brasileiro. Em sua lápide, no Alto da Sé, em Olinda, está grafado: “O Profeta do Século 20”.
Impossível não pensar nas querelas entre um famoso “bispo universal” e um “apóstolo mundial”, ambos evangélicos, nos últimos dias. Ambos são sacerdotes de uma religião de mercado, e por conta da disputa por consumidores, estão protagonizando mais um capítulo vergonhoso diante de toda a nação. Ambos se acusam mutuamente, mas ambos vivem de forma luxuriosa. Ambos fazem da fé uma razão para acumular bens, na contramão do espírito do Sermão do Monte, que nos chama a “não acumular tesouros sobre a terra” (Mt 6,19-21). Ambos escandalizam a sociedade, e ajudam a espalhar o descrédito do povo em relação às igrejas.
Dom Helder, assim como o “bispo universal” e o “apóstolo mundial”, representam modelos de fé bem diferentes. Qual deles nos atrai mais? Qual deles inspira nossa fé? Qual deles carrega com mais clareza a qualidade do Evangelho de Jesus?
Precisamos, enfim, fazer a pergunta que Jesus fez ao escriba: “qual destes foi o próximo dos necessitados?” (Lc 10,36). Jesus nunca deixou de dialogar com a memória dos profetas. No Sermão do Monte ele nos chama para tê-la como um referencial constante (Mt 5,12). Nesses tempos de bispos e apóstolos duvidosos, precisamos continuar dialogando com a memória dos profetas, e Dom Helder é alguém que tem muito a nos dizer, pois “mesmo morto, ainda fala” (Hb 11,4).
* Texto do boletim dominical da Igreja Batista do Pinheiro (Maceió-AL), no dia 01/04/2012.

Um comentário:

Petronio Borges disse...

Belíssimo meu nobre! Coragem na militância profética. Precisamos de referenciais.
Forte abraço!
Petronio Borges