terça-feira, 3 de abril de 2012

VOCACIONADOS PARA A VIDA!


O filósofo Martin Heidegger é autor de um aforismo famoso que diz: “O homem é um ser para a morte”. Para Heidegger, a morte seria uma espécie de vocação absoluta do ser humano. À luz da nossa fé, diríamos que ele está “meio certo”. A morte é mesmo uma certeza inescapável de nossa existência. Mas para nós, que cremos na ressurreição, ela não é o único absoluto que a tudo relativiza.
No Domingo de Páscoa devemos renovar nossa fé na ressurreição. Na Bíblia, entretanto, esta fé significa muito mais que a vitória sobre a morte pessoal. Segundo Paulo, a ressurreição de Jesus foi o primeiro dia da Nova Criação (1Co 15,20-28). Por isso, a esperança pela ressurreição não deve ser uma atitude individualista de quem quer “viver para sempre”, mas deve ser a força que nos impele para a criação de um Novo Mundo. A Nova Criação começa agora, com homens e mulheres renascidos pelo poder da ressurreição de Jesus Cristo. A ressurreição escatológica é o clímax dessa Nova Criação que já começou em Cristo e em nós.
Infelizmente, nossa cultura faz de tudo para que nos distanciemos do real significado da Páscoa. O capitalismo a transformou em mais uma data para aquecer o mercado. Mas as raízes desta festa têm a ver com a misericórdia de Deus atendendo ao clamor de gente escravizada, conforme a narrativa do Êxodo (Ex 3,7; 12,1-28). Para ser fiel às suas origens, a Páscoa Cristã também deve ser uma celebração da ação de libertadora de Deus no mundo, iniciada com a vida, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.
Por isso, não desvinculemos a morte e a ressurreição de Jesus das suas opções de vida. A ressurreição de Jesus não é um dogma nem uma doutrina. Ela é a expressão da insistência de Deus em um projeto de defesa da vida dos oprimidos. Ela é a aposta de Deus de que a Nova Criação pode começar a partir de nós.
E se comecei essa pastoral citando um filósofo, quero terminá-la citando outro: “Somente onde há sepulturas pode haver ressurreições” (F. Nietzsche). Que a ressurreição de Jesus Cristo nos tire de nossas sepulturas pessoais como fez com o casal a caminho de Emaús (Lc 24,13-35), e nos fortaleça para levar vida e amor a um mundo marcado pelos poderes da morte e do ódio. Nós somos seres vocacionados para a vida!
* Texto do boletim dominical da Igreja Batista do Pinheiro (Maceió-AL) em 08/04/2012

3 comentários:

Petronio Borges disse...

Bravo! Obrigado meu nobre. De você não se pode esperar menos. Mas, fiquei curioso quanto ao casal!(?) Forte abraço.
No Ressuscitado,
Petronio Borges

Paulo Nascimento disse...

Olá querido!

A ideia de que era um casal vem de João 19,25. Supõe-se que Cleopas (Lc 24,18) seja o mesmo Clopas de Jo 19,25. Não se sabe a razão da ocultação lucana do nome de Maria, mencionado por João. Sabemos apenas que o nome das mulheres, a depender da classe a que pertenciam, e a depender de certas ocasiões, era ocultado das narrativas. É o caso aqui? Não tenho certeza! Apenas gosto dessa suposição de que se tratava de um casal.

Grande abraço !!!

Paulo

Petronio Borges disse...

Por isso que sigo este Blog. Com a relação Clopas-Clopas o "partir do pão" se me torna mais significativo, o Ressuscitado na família. Fica mais gostoso ouvir
Silvestre Kuhlmann

Andando no caminho de Emaús
Com minhas esperanças já perdidas,
Com minhas vistas tão escurecidas,
Não via que ao meu lado ia Jesus.

Que perguntou: "Por que estás tristonho?"
Falei: És Tu o único que ignoras?
Quem em Jerusalém passou as horas,
Na sepultura viu findar o sonho.

Expôs-me as Escrituras com beleza,
E enquanto Ele falava me ardia
O peito. Disse a Ele: Vai-se o dia,

Fique comigo, sente-se à mesa.
E quando abençoou, partiu o pão,
Vi ressurgir a minha salvação.

Forte abraço.

Petronio